“La Belle Sauvage”: Philip Pullman e sua nova luta contra a Autoridade

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His Dark Materials é uma das séries mais populares, célebres e polêmicas do cânone infanto-juvenil.  Vinte e dois anos depois do lançamento de seu primeiro livro – uma recontagem de Paraíso Perdido protagonizada por crianças – a ousadia de Phillip Pullman continua desconcertante.

Quando o autor decidiu revisitar sua trilogia, portanto, não foram poucos os fãs que tomaram a internet de assalto, com êxtase digno – com o perdão da ironia – de uma segunda vinda de Cristo.

The Book of Dust, em produção há mais de 10 anos, é o resultado desse retorno. Seu primeiro volume, La Belle Sauvage, conjura personagens conhecidas e situações pouco óbvias, num romance que revela Pullman como um mestre em plena forma.

La Belle Sauvage

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Sua nova fábula acontece na mesma Oxford de Lyra Belacqua, dez anos antes dos eventos de A Bússola Dourada. Seu protagonista é Malcolm Polstead, um jovem de 11 anos que trabalha com os pais no pub A Truta e pilota uma canoa chamada La Belle Sauvage.

Malcolm leva uma vida simples até o dia em que cruza com uma mensagem secreta de uma organização chamada Oakley Street. Um órgão, como diz um de seus membros, destinado a defender a democracia e a liberdade de pensamento e expressão.

O Magisterium ainda não atingiu seu poderio de His Dark Materials, mas suas garras já começam a aparecer. Agentes do Tribunal Consistorial de Disciplina (TCD) rondam as noites de Oxford. Professores de escolas são removidos e são substituídos por outros leais à Igreja.

Algo estranho paira no ar, e parece ter a ver com uma certa bebê chamada Lyra, filha de um certo Lorde Asriel que leitores de Pullman conhecem tão bem. Afastada do pai após a morte de Edward Coulter (mencionada na trilogia original), a recém-nascida é enviada a um convento em frente ao pub de Malcolm.

O garoto se torna um informante da Oakley Street, e descobre que Lyra corre um sério risco. Gerard Bonneville, um cientista enlouquecido com um daemon em forma de hiena, está no encalço da garota.

Quando uma enchente de proporções bíblicas coloca metade da Inglaterra debaixo d’água, Malcolm resgata Lyra do convento e parte para Londres para devolvê-la a Lorde Asriel. A bordo da Belle Sauvage, na companhia de sua colega Alice, Malcolm terá de enfrentar a Igreja, seres de outro mundo e os próprios sobreviventes do dilúvio para salvar a vida de Lyra.

Pub The Trout, que inspirou o livro de Pullman

La Belle Sauvage soará imediatamente familiar a fãs de His Dark Materials. Ao mesmo tempo, parece um romance inédito, como se lutasse para se libertar da memória de seus predecessores.

Crítico da literatura de fantasia, Pullman parece viajar entre gêneros, buscando referências tão variadas como literatura da Guerra Fria e The Fairie Queene, obra prima da poesia elisabetana.

Ilustração de The Fairie Queene, de Edmund Spenser

Para aqueles que se identificam com a mensagem por trás de seus livros, há também um contraste chocante.

His Dark Materials entrou para a história por apresentar John Milton a uma nova geração. Sua trilogia é um ataque à religião organizada – em especial, o calvinismo e  o anglicanismo sob cujos princípios o qual o próprio autor cresceu.

Vinte anos depois, Pullman continua em guerra contra a Autoridade, mas seus inimigos não são bem os mesmos. Tampouco as estratégias (suas e de seus heróis) em sua luta pela razão e liberdade.

Para aqueles que esperam reviver a luta de Asriel em A Luneta Âmbar, isso pode ser uma má notícia.

O dogma não é mais o mesmo

A Guerra do Céu por Gustave Doré

His Dark Materials é uma trilogia que só li depois de adulto. Por causa disso, creio que me impressionou muito menos que meus colegas que a descobriram na tenra juventude.

Ela é o tipo de livro que teria fascinado meu eu de 16 anos. Um adolescente prepotente e agressivo, leitor de Milton e Nietzsche, que rondava os corredores à espreita de minhas amigas devotas para lhes chamar de “estúpidas”, “crentes” e “alienadas”.

A saga de Lyra e Will me traz a mesma vergonha que hoje sinto dessas recordações. E ao ouvir de Lorde Asriel que a história humana é uma guerra entre os “estúpidos” e os “sábios”, fico me perguntando como um autor tão talentoso de erudição tão invejável pôde chegar a uma mensagem tão simplória.

Basta passear pela própria Oxford de que escreve para saber que aquela universidade – uma das melhores do mundo – foi construída pela Igreja na “sombria” Idade Média. E basta circular pela Academia para saber que também entre cientistas – e autointitulados “sábios” – há dogmatismo suficiente para toda uma inquisição.

Pullman – o homem – sabe disso muito bem. O autor já disse em entrevistas que sua crítica foi dirigida a todas as religiões, tanto as sacras (como o Islã) quanto as seculares (como o comunismo). O dogmatismo, diz ele, está presente em toda parte: tanto na ciência quanto na militância secular.

The Book of Dust é uma evolução a His Dark Materials, se nada mais, porque incorpora essa nuance. Sua Igreja não é mais um Templo do Mal – e seus membros, não todos fanáticos. Boa parte da história se passa em um convento, cujas freiras tratam Malcolm como se fosse um filho e odeiam o TCD tanto quanto pessoas normais.

Mais importantemente, seu Magisterium deixou de ser a mescla de Santa Inquisição com KGB que segurava o mundo pelo pescoço. Dez anos antes dos eventos de A Bússola Dourada, as alas dogmáticas do papado precisam se valer de táticas mais sorrateiras – mas nem por isso menos eficientes.

Marisa Coulter, líder do terrível Conselho de Oblação em His Dark Materials, é aqui a mentora da Liga de São Alexandre, uma organização de espionagem que treina jovens para se tornarem dedos duros.

Em vez de mirarem hereges declarados, sua missão é podar o mal pela raiz, criando uma cultura de denúncia em que alunos são encorajados a dedurar seus professores. O resultado é um controle ideológico no nível da escola, com uma polícia de pensamento formada por jovens doutrinados:

“Alguns dos professores afastados que haviam saído em protesto ou que haviam sido obrigados a pedir licença voltaram, amuados ou repreendidos; outros haviam desaparecido e sido substituídos. A verdadeira autoridade na escola era exercida pelo nunca-completamente-nomeado, nunca-completamente-descrito, nunca-completamente-declarado grupo de alunos mais velhos formados pelos primeiros e mais influentes membros da liga. Eles se encontravam com Mr. Hawkins todo dia, e suas decisões ou ordens eram anunciadas na assembleia do dia seguinte. De alguma forma era implícito que cada uma destas proclamações era a palavra direta de Deus, de maneira que desobedecê-la ou protestar era blasfêmia. Muitos alunos arranjaram problemas antes de entender isso. Agora, no entanto, o entendimento havia permeado tudo.”

É uma imagem terrivelmente atual, menos reminiscente das ditaduras do passado que de tentativas contemporâneas de aparelhar a educação: dos speech codes e “espaços seguros” em universidades americanas a movimentos como o Escola Sem Partido.

Um “pesadelo” muito real que Pullman, ele próprio um professor, deve conhecer melhor que ninguém.

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Fonte

Dezessete anos depois de matar a Autoridade em A Luneta Âmbar, Pullman parece ter se convencido de que vivemos sob outra espécie de tirania. Protagonizada não por inquisidores, mas por uma militância pulverizada, hipócrita, pusilânime e, muitas vezes, benevolente.

Infelizmente, a mesma virtude que faz de La Belle Sauvage tão atual tira um pouco de seu vislumbre.

Como sede dos vilões, a Liga de São Alexandre é menos impressionante que o Conselho de Oblação de A Bússola Dourada e quase banal se comparada à Montanha Nublada, o baluarte celestial de Metatron em A Luneta Âmbar.

Oakley Street, a “resistência” britânica de que Asriel faz parte, é um substituto pálido à sua épica rebelião de His Dark Materials, com seus girocópteros e espiões galivespianos.

Mesmo Gerard Bonneville, principal antagonista do romance, é uma reprise insossa de Padre Gomez, assassino do Magisterium que persegue Mary Malone na trilogia original. Seu intrigante daemon em forma de hiena não é substituto para um desenvolvimento que nunca acontece.

Ao longo do romance, o ex-cientista enlouquecido mal tem direito à voz própria. Ouvimos de terceiros que é algum tipo de predador sexual, mas os detalhes de seu crime nunca vêm à tona, nem ele ganha outra máscara que não a da vilania. Para um escritor que nos trouxe uma vilã tão memorável como Marisa Coulter, o personagem é uma grande decepção.

Um recomeço hesitante

Estátua de Father Thames na Inglaterra

Mesmo assim, se o primeiro volume de The Book of Dust não é tão cativante quanto A Bússola Dourada, isto se deve menos às personagens que à estrutura do livro.

La Belle Sauvage é um romance longo e lento, a despeito da prosa sempre ágil e envolvente de Pullman. Seu primeiro arco está mais próximo dos dramas urbanos de Charles Dickens que da alta fantasia de seus predecessores.

Isso, em si, não é um defeito. Contudo, ler sobre Malcolm descascando batatas para as freiras ou servindo cerveja em seu pub nunca será tão interessante quanto os ursos de armadura, crânios trepanados ou bruxas lapãs do best-seller de 1995.

O segundo arco, pelo contrário, é um tesouro de imaginação, e nos traz um Pullman em sua melhor forma.  Na sua jornada por uma Inglaterra alagada, Malcolm, Alice e a pequena Lyra têm de lidar com ilhas misteriosas, fadas malevolentes e monstros aquáticos.

É uma aventura que lembra ora A Odisséia, ora o gênero irlandês das immrama, viagens ao Outro Mundo empreendidas por navegantes intrépidos. Tudo sob uma roupagem tipicamente britânica, com a aparição de criaturas como Father Thames, o espírito do rio Tâmisa.

Pullman anunciou que seu próximo livro se chamará The Secret Commonwealth, baseado em um livro sobre fadas escrito por Robert Kirk no século XVII. Seu enredo se passará vinte anos depois, acompanhando uma Lyra já adulta em uma história “completamente diferente” das que já escreveu.

Tudo indica que o romance combinará o melhor de La Belle Sauvage, His Dark Materials e Lyra’s Oxford, seu spin-off sobre a adolescência de sua heroína. Se a promessa for cumprida, The Book of Dust pode se tornar a trilogia mais inusitada de seu cânone.

Uma trilogia, não obstante, que demora para engrenar. La Belle Sauvage é um livro cativante, escrito em uma prosa insuperável por um dos mestres em atividade na língua inglesa. É, mesmo assim, um livro vagaroso, que testa a paciência de seus leitores – e sua lealdade à saga original.

As fronteiras do universo estão de volta, mas seu recomeço é hesitante.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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