Uma aventura no Japão #4: a Kyoto que os guias não mostram

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Cavaleiros do Aoi Matsuri, festival típico de Kyoto.

Ah, Kyoto! Patrimônio da humanidade. Paris do Oriente!

Se você, como eu, é apaixonado pelo Japão, já teve ter ouvido que sua antiga capital é o lugar para se visitar. Se Tóquio é o templo da modernidade, Kyoto é a metrópole da tradição.

Isso tudo é verdade, mas não necessariamente da forma como você imagina. Ao visitar a cidade, percebi que ela é realmente a “Paris do Oriente” – para o bem e também para o mal.

A primeira impressão é a que fica. Para Kyoto, no entanto, isso pode ser problemático. Ao chegar na cidade, é muito provável que você se depare com uma cena como essa:

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Todo mundo sabe que o kimono é a roupa típica do Japão. Mesmo assim, é um traje cerimonial, usado apenas em ocasiões solenes, como casamentos ou festivais.

Não parece ser o caso em Kyoto. Na antiga capital nipônica, não é preciso sair da estação para ser soterrado por multidões inteiras desfilando seus obis.

Para um gaijin recém-saído de Tóquio, a impressão é que o Shinkansen é, na verdade, uma máquina do tempo. De uma metrópole histérica povoada por maids e homens de terno, chegamos a uma cidade que parece saída do Período Muromachi.

O problema é que tudo mentira.

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Kyoto possui centenas de lojas de aluguel de kimono. As hordas de homens e mulheres vestidos a caráter são na verdade turistas (na sua maioria chineses) que pagaram para viver um “dia de japonês”.

Essas lojas existem por todo o Japão, mas em nenhum lugar são tão numerosas quanto em Kyoto. Não é difícil entender por quê: os destinos turísticos mais famosos do Japão se encontram na antiga capital imperial.

Pense em uma imagem tradicional do “Japão”, e é muito provável que ela seja de Kyoto. É o caso do santuário de Fushimi, onde milhões de turistas (na sua maioria chineses) se amontoam para tirar fotos com a sanha de quem pega o metrô de São Paulo no horário de pico.

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Queria tirar foto só do torii? Boa sorte

Ou o célebre Kinkakuji, o Templo do Pavilhão Dourado, que estampa 9 de cada 10 guias turísticos sobre o país.

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Maravilhoso, né? Seria melhor ainda se fosse o original.

Sim, você leu corretamente. O prédio dourado que serve de para-raios a estrangeiros de kimono é uma cópia. O original foi completamente destruído em 1950 por um noviço piromaníaco.

O episódio foi tão chocante – e bizarro – que serviu de inspiração ao romance O Templo do Pavilhão Dourado do grande escritor Yukio Mishima.

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Kinkakuji após o incêndio de 1950

O novo Kinkakuji ainda assim é muito bonito, e serve de fundo para aquela sua foto linda com o kimono.

Ou, caso a grana esteja curta, você pode em vez disso visitar o Kinkakuji do Brasil, uma réplica idêntica do monumento construído em Itapecerica da Serra.

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Meu sarcasmo pode ter passado a impressão errada, então é melhor que eu diga de pronto: Kyoto é uma cidade espetacular, um dos lugares mais emocionantes que já conheci.

A impressão não é só minha, mas também de Henry L. Stimson, que assim como eu passou sua lua de mel na cidade.

Quem é esse sujeito, você me pergunta? Apenas o secretário de guerra dos EUA durante a Segunda Guerra, que fez o possível e o impossível para que Kyoto não virasse alvo da bomba atômica.

Sim, Kyoto é uma cidade tão maravilhosa que escapou de um apocalipse nuclear. Da próxima vez que seu amigo de exatas disser que museus não servem para nada, esse é o exemplo que você precisa dar.

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O homem que salvou Kyoto

Infelizmente, como toda cidade histórica, Kyoto é hoje vítima de seu próprio sucesso. A invasão de estrangeiros torna o centro histórico um caos, e dá incentivo a toda sorte de “armadilhas de turista” feita para te fazer gastar dinheiro.

Em Gion, o antigo bairro das gueixas, restaurantes cobram pequenas fortunas por comidas que não necessariamente são lá aquelas coisas. Isso sem falar nas gueixas em si, que sofrem assédio frequente nas ruas.

Tive o desprazer de testemunhar um episódio do tipo durante a minha viagem, e o mal-estar ainda não me abandonou. Uma maiko (aprendiz de gueixa) tentou atravessar a rua e foi prontamente emboscada por uma turba de turistas, enfiando flashes e câmeras de iPads em seu rosto como se ela fosse um animal exótico.

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Não foi na minha viagem, mas não é difícil achar fotos do tipo.  Sério, não seja esse turista

Felizmente, nem todas as “armadilhas de turista” são ruins. Se estiver pensando em pernoitar em Kyoto, fique de olho nos ryokans. São pousadas típicas japonesas com quartos de tatame, com futons nos aposentos e buffets típicos de café da manhã.

Já fiz um post sobre comidas bizarras semana passada, então não entrarei nesse mérito agora. Mas vou dizer apenas uma coisa: se você nunca comeu arroz com flocos de bonito na primeira refeição do dia, você ainda não sabe o que é acordar.

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Fonte

Ryokans são muito cobiçados – e, por causa disso, podem ser bem caros. A boa notícia é que a demanda levou a vários empreendedores a abrir “réplicas” de ryokans, com todas as características dos originais, mas localizados em prédios novos.

Leitores do blog sabem que não é minha proposta fazer propaganda, mas seria omissão da minha parte não recomendar o lugar onde fiquei. O Lucky You, perto da estação Gojo do metrô, é simplesmente um mimo.

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Lucky You em Kyoto, registrado por outro brasileiro.

Nada melhor para descansar depois de passar o dia sanduichado entre turistas chineses.

Nem todo turismo em Kyoto é farofa. Uma Aventura no Japão volta na sexta-feira, quando vou lhes contar o que fazer para sair da mesmice na cidade imperial.

 

 

 

 

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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