‘Mangás, Animes e a Psicologia”: Entrevista com a Profa. Ivelise Fortim

mangas-animes-psicologia

Em março, a cena otaku brasileira terá uma surpresa.

Talvez você já tenha lido internet afora que estava para ser lançado um livro analisando mangás e animes sob a perspectiva da psicologia.

Ele se chama Mangás, Animes e a Psicologia e chega às prateleiras no próximo dia 15. Escrito por pesquisadores da PUC (e otakus de carteirinha), é uma tentativa de trazer discussões mais aprofundadas para aqueles que amam cultura pop japonesa.

Quem acompanha o blog sabem que essa é justamente a minha missão no Finisgeekis. Não preciso dizer, portanto, que fiquei super animado ao saber da iniciativa.

Tive o privilégio de conversar com a professora Ivelise Fortim, organizadora do projeto, que me contou sobre a ideia por trás do livro, os intercâmbios entre a academia e cultura pop e a necessidade criar pontes entre pesquisadores e otakus.

Confiram abaixo a entrevista:


O que é o livro Mangás, Animes e a Psicologia? De onde veio a ideia para o projeto?

O projeto nasceu de uma paixão pessoal minha, fã de animes e mangás. Além disso, tenho notado que estas narrativas fazem parte da vida de muitos alunos, de pacientes, sejam estes crianças, adolescentes e adultos.

Eu mesma já atendi casos onde as crianças e adolescentes tinham uma importante conexão com este universo, e isso foi importante como instrumento para a comunicação na psicoterapia.

O livro contém várias análises baseadas na psicologia analítica. O que é esta área da psicologia? O que ela traz de interessante para nossa apreciação de mangás e animes?

A Psicologia Analítica é uma linha teórica da Psicologia. Criada por Carl Gustav Jung, ela fala sobre o mundo dos mitos, dos contos de fadas e das narrativas fantásticas.

Para o autor, essas narrativas são importantes para o ser humano porque falam de suas vivências mais importantes. Jung foi quem criou o termo Arquétipo e usamos esse e outros conceitos para entender as séries.

Qual é o público-alvo que vocês pretendem alcançar?

O livro é destinado ao público Otaku, de forma geral. É importante também para psicólogos que desejam entender melhor este universo.

Acredito que muitos devem estar surpresos por saberem que existe pesquisa acadêmica sobre cultura pop. Na academia, trabalhos sobre animes e mangás já são bem aceitos? Existe uma tradição consolidada para esse tipo de pesquisa?

A pesquisa acadêmica sobre animes e  mangás não é muito frequente no Brasil, mas sim, existem pesquisadores pensando no assunto. Por exemplo, a profa. Sonia Luyten tem estudado mangás desde a década de 70.

Lembro que o campo de pesquisa dos mangás é interdisciplinar: psicólogos, comunicadores sociais, antropólogos, sociólogos, etc. pesquisam o tema, mas de maneiras diferentes. A aceitação é diferente nas diversas áreas.

Animes e mangás já fazem parte do dia-a-dia do brasileiro, mas seu contexto de produção é bem afastado da nossa experiência. Isto é uma dificuldade para quem faz pesquisa? O que é preciso saber para estudar a fundo essas mídias?

Não vejo o fato da produção não ser feita aqui como empecilho. O que eu entendo que é preciso para estudar a fundo mangás e animes é um bom conhecimento da cultura oriental, de sua história, seus costumes, religiões, valores, etc.

No caso desse livro, trabalhamos apenas com mangás japoneses, então entendo que é muito difícil falar com propriedade se você não conhece a cultura japonesa com um pouco mais de profundidade. Caso contrário, você corre o risco de fazer uma interpretação ocidentalizada do que acontece nas narrativas, muitas vezes perdendo o significado que o mangaká quis transmitir.

Um dos capítulos do livro fala sobre mangás e animes yaoi. Creio que esta seja uma das mais peculiares (e populares) facetas da cultura pop nipônica. Como você enxerga seu apelo?

Falei com Louise Monteiro, a autora do capítulo. Ela disse que acredita que seja porque foi uma produção exclusiva das mulheres em uma área dominada pelos homens.

Mangás yaoi apresentam as perspectivas delas para os personagens, principalmente masculinos, assim como os homens apresentavam suas perspectivas sobre todos os tipos personagens que eles queriam criar.

Muitas discussões sobre anime/mangá giram em torno do impacto que estas mídias podem ter nas nossas vidas. Recentemente, por exemplo, o mangá Usagi Drop provocou um burburinho pelo que foi interpretado como uma apologia à pedofilia. Como psicóloga, como você encara esses debates?

Os mangás e animes são mídias como outras que conhecemos. Podemos fazer os mesmos questionamentos com relação a influência da televisão, dos videogames, dos comics, dos filmes e seriados.

Entendo que as pessoas que leem esses quadrinhos são capazes de fazer o que chamamos de mediação, ou seja: você é capaz de refletir sobre o que você viu, sem simplesmente sair copiando alguma coisa que você viu em algum lugar.

No meu ponto de vista, os sujeitos são capazes de ter crítica sobre o material com quem entraram em contato, tomando suas próprias decisões sobre as ações.

Devo dizer que fiquei muito contente com o entusiasmo que o público otaku tem demonstrado ao lançamento do livro. Como alguém que também faz pesquisa sobre cultura pop (na área de games), sei que nem sempre é fácil lançar um trabalho que circule entre os dois mundos. Como você vê essa ponte entre academia e fãs no momento atual? Você acredita que o crescimento do mundo geek trouxe também um público interessado em ler mais a fundo sobre as obras que ama?

Eu também devo dizer que estou feliz com a curiosidade que os otakus estão com relação ao livro. Essa é a segunda iniciativa de contato com o público comum (o livro anterior que fizemos se chama The Big Bang Theory e a Psicologia), e espero conseguir com que os psicólogos entendam melhor os fãs, e que os fãs entendam melhor porque amam essas narrativas.

De fato, o crescimento do mundo Geek traz um público mais interessado em aprender, entender melhor o que gosta. Afinal, passamos de nerds rejeitados a Otakus, Nerds e Geeks valorizados, com grandes eventos específicos e um mercado editorial gigantesco. A ponte entre academia e público, do meu ponto de vista, é muito importante.

Quantos otakus podem vir a ser psicólogos e entender melhor o ser humano? E quantos pesquisadores podem compreender melhor o universo otaku? Creio que essa é minha vocação, como Hermes da mitologia grega, que visa fazer pontes e contatos entre pessoas muito diferentes.


Mangás, Animes  e a Psicologia será lançado dia 15 de março, das 17h às 22h no Teatro Tucarena da PUC-SP (Rua Bartira 1024, Perdizes, São Paulo – SP)

Se curtir anime e estiver pela cidade, não deixe de conferir!

 

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

3 comentários em “‘Mangás, Animes e a Psicologia”: Entrevista com a Profa. Ivelise Fortim”

  1. Usagi Drop foi acusado de pedofilia? Mas tipo, é um dos animes com crianças menos pedófilos que eu já vi. Wtf

    Anyway, eu acho extremamente interessante trabalhos sobre o impacto de obras artísticas em indivíduos e sociedades. Não tenho particular interesse sobre a questão otaku no Brasil por causa da situação de nicho e o pouco tempo da cultura, mas gosto muito de ler – e pensar sobre a sociedade japonesa seguindo a ótica – das causalidades da indústria no Nipão.

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    1. O anime realmente não tem nada demais. A questão é que no mangá (que recentemente foi publicado aqui no Brasil pela NewPop), ***SPOILER*** Rin acaba se apaixonando pelo Daikichi e os dois se casam. Por causa disso, foi acusado de romantizar o “child grooming”, processo pelo qual uma criança é criada/preparada para se tornar mais receptiva ao abuso sexual.

      Curtido por 1 pessoa

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