A patinação real por trás de “Yuri on Ice”

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Não deu outra. Yuri on Ice! se tornou um dos maiores hits da temporada.

O sucesso é entendível – e merecido. Com um drama sólido sobre esporte animação de ponta, opening ending inspirados e doses cavalares de fanservice para fujoshis, é uma série com algo a oferecer para qualquer um.

 

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Fabulous

Independente do tipo de espectador que você seja, é seguro dizer que Yuri impressiona no principal: o esporte que está em seu título.

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Mesmo quem não tem qualquer familiaridade com patinação no gelo dificilmente sai indiferente às suas belíssimas coreografias. Não é qualquer anime que consegue fazer a cena do rinque de Death Parade comer poeira.

Claro, o que é o seu maior atrativo pode ser também seu elemento mais confuso. Mesmo eu, que até já fui a um campeonato ao vivo, não faço a menor ideia de como o esporte funciona.

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Por exemplo, isso era uma piada. Entendeu? É, eu também não

O que raios é um Lutz? Ou um Salchow quádruplo? Por que a pontuação é tão confusa? E por que os patinadores caem tanto no chão – e vencem de competidores que fazem tudo “certinho”?

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Tudo fica mais complicado porque, ao contrário de outros animes, Yuri on Ice é incrivelmente fiel ao seu esporte. Quanto, vocês me perguntam? A ponto de fazer a atual campeã do mundo, Evgenia Medvedeva, e o bicampeão olímpico Johnny Weir tietarem a série no Twitter:

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Felizmente, nessa vida não precisamos saber de tudo: basta conhecermos quem saiba. Para minha sorte, minha querida Vivian Pereira, que já fez patinação e é fissurada nos campeonatos, aceitou nos contar tudo o que precisamos saber para dominar o assunto.

Confiram abaixo:

1) O que significam todos aqueles números?

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Yuri on Ice mostra em vários momentos a tensão sobre as notas e os elementos que os patinadores tem que executar em suas coreografias. Contudo, para quem não sabe nada sobre como elas funcionam,  algumas coisas ficam mais complicadas de entender.

Até 2005, as notas eram dadas a partir de um sistema conhecido como “6.0”, em que basicamente cada membro do painel de jurados dava duas notas entre 0 e 6 para o patinador: uma pelo seu mérito técnico (saltos que realizou, giros, sequências de passos) e outra pelo método artístico (interpretação, coreografia, etc).

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Alguns levam o “artístico” a sério demais

A partir dessas notas era feita uma somatória que dava a nota total recebida pelo atleta.

Esse sistema visava a criar um ranking entre os patinadores, e a nota era dada através da comparação entre eles. Muitas vezes o jurado já tinha em mente a posição que aquele atleta deveria ocupar com sua apresentação e usava as notas para chegar a essa classificação.

Isso gerava muitas críticas ao sistema, que também era limitado, dado que a nota máxima era o 6 – que significava a excelência técnica. Contudo, no universo dos esportes de elite, onde a cada dia limites são superados e a inovação impera, esse sistema não é muito adaptável e vai gerando desvios grandes com o tempo.

Além disso, é um sistema muito fácil de ser manipulado, por ser baseado em ‘opiniões’ dos juízes, o que gerou grandes escândalos de corrupção como o das Olímpiadas de Inverno de Salt Lake City.

Como resposta a todos esses problemas, o ISUInternational Skating Union, órgão responsável por regulamentar esportes como a patinação de gelo no mundo, criou um novo sistema de pontuação, conhecido por CoP (Code of Points), que hoje é o sistema oficial das grandes competições de patinação no gelo do mundo.

Esse sistema determina uma nota base para cada elemento da patinação e os jurados tem a finalidade de 1) verificar se o elemento foi executado corretamente e 2) atribuir uma nota sobre a qualidade da execução (do inglês GoE Grade of Execution) que varia de -3 até +3.

Isso torna o sistema muito mais exato na hora de avaliar o esportista e ele também leva em consideração o que o atleta realizou no seu programa, ao contrário de ser comparativo com os demais.

Além da nota técnica, ainda se mantém a nota pela parte artística (conhecida como Program Components). Dentro desse critério são avaliadas as áreas de Habilidades de Patinação, Transições, Performance, Composição e Interpretação da música, cada uma recebendo uma nota que vai de 0.25 a 10.

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Para quem assiste patinação ou mesmo a patinação do anime, vai então entender porque os melhores patinadores do mundo caem tanto nas suas apresentações, que em geral não são perfeitas.

Isso porque a nota base de um salto quádruplo, por exemplo um Lutz, é de 13.6 enquanto o mesmo salto triplo é de 6.0. Dessa maneira, se o patinador conseguir realizar as 4 rotações completas mas cair, ele ainda terá a nota base de 13.6, uma dedução de -1 ponto pela queda e um Grau de Execução baixo (provavelmente recebendo -3 dos juízes). Ainda assim ele leva pelo salto com queda 8.6 pontos. Caso ele realizasse apenas um Triplo Lutz muito bom poderia ficar com cerca de 7.5~8.1 – o que é menor que o salto quádruplo em sua pior execução.

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Por conta disso muitos optam por levar para competição todos os seus saltos mais difíceis que conseguem completar as rotações, mesmo que tenham uma queda eventual ou uma execução não tão perfeita.

A cena do Seung-gil Lee calculando os pontos enquanto patina, no episódio 8, é um exagero, mas nem tanto. Ter essas coisas em mente é obrigatório se você quer chegar ao nível de disputar o Grand Prix.

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Agora uma coisa que é bastante improvável é, numa competição importante, o patinador mudar o seu salto previsto de dificuldade inferior para um de grande dificuldade, como o Yuuri faz no episódio 7.

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Oras, se ele estivesse conseguindo com certa segurança completar o quádruplo, ele certamente estaria em seu programa, pela lógica da pontuação que falamos anteriormente. E é definitivamente mais danoso para ele tentar fazer um salto mais difícil – que provavelmente não está bem treinado ainda – e não conseguir, pois daí ele somente terá a nota base do salto mais simples e ainda contará com todas as deduções da execução ruim.

Num esporte em que cada décimo conta para a definição dos resultados, essa aposta é algo que um competidor de alto nível dificilmente fará, fora a tensão emocional de pensar em toda essa estratégia durante a execução de uma coreografia que não é nada fácil.

2) Victor JAMAIS seria técnico de Yuuri

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Ok, sabemos que isso não tem nada a ver com patinação. As paixonices de Victor e Yuuri são o maior cartão de visitas da série. O amor conquista tudo – até mesmo as regras do esporte.

Sorte do Yuuri, pois na vida real seu romance com o Victor dificilmente aconteceria. Afinal, ele nunca teria a oportunidade de trabalhar com ele.

A coisa mais estranha do anime é o fato de Viktor, um patinador de 27 anos, ter se tornado técnico e coreógrafo de Yuuri, que por sua vez tem 24. Apesar de suas recentes decepções, Yuuri é um patinador de alto nível, que participa das maiores competições do mundo, como o ISU Grand Prix e o campeonato mundial.

É verdade que existem patinadores já experientes que viraram coreógrafos bem cedo., É o caso de Misha Ge que com 25 anos já montou programas para alguns de seus colegas de esporte.

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Misha Ge

No entanto, ser técnico não é tão simples. Um técnico de patinação, além de grande conhecedor do esporte, (muitas vezes um campeão de êxito no passado), não está na grande liga antes de seus 40 anos.

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A patinação no gelo nos seus níveis mais altos, como é o caso mostrado no anime, é um campo altamente competitivo. Para chegar lá, os patinadores não só doam suas vidas, como gastam muito dinheiro para treinar com os melhores técnicos do mundo.

Yuuri e Phichit não foram da Ásia para Detroit porque sonhavam em morar no Michigan. Para chegar ao topo, é preciso ir aonde estão os melhores. Mudar de país, muitas vezes, é uma necessidade.

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A propósito, é bastante comum que patinadores rivais, dos lugares mais diferentes, pratiquem com o mesmo treinador. Um exemplo da edição desse ano do Grand Prix são o Javier Fernandez (da Espanha) e o Yuzuku Hanyu (do Japão), que treinam nos EUA com o mesmo técnico.

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No anime, a gente vê isso com Yuuri Katsuki e Phichit, e depois, quando Victor pede para o treinador de Yuri Plisetsky, Yakov, orientar Yuri Katsuki na sua ausência. O Yuri russo fica revoltado, mas deveria saber melhor: no mundo da patinação, isso é super normal.

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Menos ir de Moscou ao Japão como se fosse ponte aérea. Isto não é nada normal

Não é uma brincadeira de criança, em que resultados não importam e há espaço para amadores. Um patinador de 24 anos, como o caso de Yuuri, na vida real já estaria ficando preocupado, pois deveria estar em seu auge ou próximo disso pela sua idade.

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Há de se pensar que seus rivais podem ter 18 ou 16 anos até – ou seja – não há tempo a perder.

É por isso que Christophe, no episódio 10, parece tão apreensivo quando conversa com Victor. Com o russo de fora para treinar Yuuri, ele passou a ser o mais velho do páreo. Sua idade? Apenas 25 anos!

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Temos que lembrar que é participando e ganhando campeonatos que eles geram dinheiro para pagar suas despesas de viagens e treinos – que não são nada baratas.

Um patinador de competição – chamado de amador  – não pode usar o esporte profissionalmente para gerar renda (por exemplo, em trupes como Disney on Ice). Ou seja: cada campeonato não só vale ouro mas um gordo cheque de U$25.000 para o ganhador. (*valor para o ganhador individual masculino do Grand Prix Final 2016-17.)

Dessa maneira, se você, como patinador de elite, que gastou já uma vida de muito esforço e muito dinheiro, tem intenção de participar e ganhar os melhores campeonatos internacionais, você precisa de um grande técnico. E um jovem esportista que mal saiu das competições dificilmente será capacitado para esse posto.

3) O que fazer para chegar ao Grand Prix?

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A competição retratada no anime é certamente uma das mais prestigiadas competições de patinação do mundo.

O Grand Prix é um torneio de elite onde somente os melhores podem entrar. A seleção dos nomes é feita por um comitê que leva em consideração os resultados da última temporada do patinador e os seus resultados internacionalmente reconhecidos, se tornando uma competição ‘invitational only’, altamente prestigiada.

A seleção para o torneio pode se dar por diversos critérios. O primeiro deles é a posição do patinador no último campeonato mundial. Caso ele tenha ficado entre os seis primeiros em sua categoria, ele será considerado para a categoria de ‘Seeded Skater’, que será a mais prestigiada forma de ser convidado para o evento.

Esses patinadores serão os primeiros a serem distribuídos dentre as 6 provas do torneio. Aí se começa a ver a importância de uma carreira sólida, e como um ano de maus resultados pode atrapalhar bastante a carreira de um patinador.

A outra forma  é ser convidado na categoria de ‘Come-back’. Um patinador que já esteve no Grand Prix dentre os ‘Seeded Skaters’ nos últimos 10 anos, mas que se afasta das competições por algum motivo, pode ser convidado pela organização a participar novamente do torneio.

Essa é uma oportunidade única, dado que se ele desistir da competição ou não manter seus resultados no futuro, não poderá ser convidado novamente sob essa mesma regra. Ao que parece, o Yuuri Katsuki entra no campeonato através dessa brecha – ou seja – ele deveria estar levando essa competição muito a sério!

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Não só ele!

Patinadores também podem ser convidados por terem ficado entre a 7a e 12a posição no último campeonato mundial, ou podem ser selecionados pelo seu país para o torneio local.

Nesse último caso o patinador somente compete em uma das provas o que praticamente não o torna viável para se classificar para a final, mas sim dá possibilidade de experiência, visibilidade e de ganhar um prêmio nessa primeira etapa do campeonato.

Há várias outras formas de se preencherem as vagas, que vão obviamente ficando mais escassas a cada nível de seleção então um bom resultado na carreira é vital para entrar nesse campeonato.

Uma vez selecionados, os patinadores são designados para 2 das 6 etapas da competição, cada uma em um país, que podem ser Estados Unidos, Canadá, França, Rússia, China e Japão.

Para cada competição os patinadores ganham pontos ligados à sua classificação final e apenas os 6 melhores dos cerca de 40 participantes em cada categoria disputam a tão prestigiada final.

É acirrado. É difícil. É de sair do sério. Não é à toa que, quando Victor diz que casará com Yuuri quando ele vencer o campeonato, os outros olham como se quisessem matá-los.

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Para faturar o Grand Prix, não há obstáculo que não se esteja disposto a quebrar. Nem mesmo o casório do colega.

***

E aqui chega ao fim esse artigo especial! Agradeço muitíssimo à Vivian por trazer um pouco desse mundo super interessante que Yuri on Ice!, com sorte, está ajudando a divulgar.

Esse já é segundo guest post do finisgeekis, e preciso dizer que estou super feliz com o resultado. Espero que você, leitor, também esteja!

Até a próxima!

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

4 comentários em “A patinação real por trás de “Yuri on Ice””

  1. Eu achava que a grande competitividade e as notas do torneio eram exageros e conveniências de roteiro,porém agora entendo o quão difícil é praticar patinação no gelo profissionalmente. É bastante interessante ver a reação de atletas, assim como as peculiaridades que vocês comentaram.
    .
    Excelente post! Tudo muito bem apresentado, explicado, analisado e informado!

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  2. Ótimo post! Sou fã de patinação e fiquei muito empolgada quando ouvi falar de Yuri!!! on Ice pela primeira vez. Adoro a abordagem fiel ao esporte e todos os detalhes e referências que o anime faz à patinação real.

    Só não concordo muito com o post na parte em que fala que o Yuri provavelmente se classificou para o Grand Prix como “come-back skater”. Pelo que sei, essa categoria é só para patinadores que ficaram pelo menos uma temporada inteira fora (ex: Virtue/Moir voltaram nessa temporada depois de dois anos fora de competições). Por mais que o Yuri tenha perdido parte da temporada por não conseguir se classificar para as grandes competições finais (4 Continentes e Mundial), ele participou do Grand Prix no começo da temporada.

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