Corrente de Reviews 2016: “True Tears”

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É com muito prazer que trago a vocês a contribuição do finisgeekis à Corrente de Reviews 2016 do Anikenkai!

Para quem não conhece, a corrente é um projeto realizado desde 2012, que tem como objetivo unir a blogosfera para oferecer aos nossos leitores um repertório coletivo de críticas de anime.

Recebi minha indicação do grande Carlírio Neto do Netoin!, meu colega da Blogosfera Otaku BR. Assim, é com grande prazer que apresento minha análise do anime True Tears.

O anime

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Há animes que rompem tradições, e outros que as vestem como se fosse uma luva.

True Tears, com certeza, pertence ao segundo grupo. Da ambientação pacata aos arroubos de melodrama, ele não se envergonha de mostrar que é uma execução clássica do romance slice of life.

A trama acompanha Shinichirou Nakagami, um adolescente que mora em uma pacata cidade litorânea. Sua família vive em um daqueles imensos casarões japoneses, de telhado de madeira e paredes de papel arroz.

Acontece que, com ele, vive também Hiromi, filha de um amigo de seu pai, acolhida pela família após a morte de seus parentes. Hiromi é uma garota bela, atlética e inteligente, e não demora para que o rapaz perceba que o que sente por ela vai além da amizade.

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Hiromi anda sempre ensimesmada, como se não sentisse que pertencesse à família. Entre ela e a mãe do garoto, há uma tensão que nenhuma das duas parece querer enfrentar. Haveria algum grande segredo escondendo-se debaixo da superfície? Será que ele, Shinichirou, devia mesmo se envolver com a garota misteriosa?

Para sua sorte (ou azar), o rapaz não está sozinho nas suas angústias. Na escola, Shinichirou conhece Isurugi Noe, uma menina excêntrica que cria (e é fascinada) por frangos.

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Noe cria frangos, e tem duas aves de estimação: Jibeita, uma galinha típica, e Ringomaru – que segundo ela, sonha em um dia conseguir voar. A garota cisma que Shinichirou se parece com Ringomaru, e esconde no coração um grande desejo que não é capaz de realizar.

Juntos, eles vivem uma jornada pessoal em que colocarão a limpo seus traumas, projetos e sentimentos verdadeiros.

Coração para dar e vender

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Que seja dito: True Tears é uma série autêntica. Suas personagens agem como adolescentes de verdade. O dia-a-dia de seu vilarejo interiorano é trazido à vida com os melhores valores de produção que 2008 tinha a oferecer.

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Shinichirou pratica uma dança típica japonesa. Seu pai é produtor de sakê. As suas vidas, como as de quase todos na vila, gira em torno de um festival de inverno no final do ano.

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São detalhes pequenos, mas que fazem toda a diferença.

True Tears carrega o nome (e nada mais) de uma visual novel de 2006, e há um lustro típico do gênero que permeia todo o anime. Há uma vaga ideia de harém, com um grupo de personagens femininas orbitando um único rapaz.

Contudo, graças à sutileza do roteiro – e à personalidade de sua ambientação – estes elementos não chegam a se sobrepor. Que True Tears consiga navegar uma fórmula batida sem naufragar nos próprios clichês é, por si só, digno de nota.

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Como alguém que também viveu em uma pequena cidade praieira quando tinha dezesseis anos, não pude deixar de me reconhecer nos detalhes.

Quem já perambulou emburrado pelo calçadão durante a maré alta sabe o que é aliviar as mágoas com a maresia. Quem já teve um beijo roubado em uma tarde preguiçosa após a escola também. Há um charme particular em tudo isso, e a maneira como True Tears nos traz estes pequenos momentos é nada além de doce.

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Existem muitas obras sobre adolescentes, mas uma boa parte faz isso da forma errada.

Em 2010, o filme nacional As Melhores Coisas do Mundo ganhou o apreço dos críticos ao prometer um drama adolescente “autêntico” fruto de entrevistas feitas em vários colégios da cidade. O resultado, porém, foi uma pasta genérica de lugares-comum que, embora “corretos”, não representam ninguém de verdade.

Adolescência é mais do que sonecas na classe, aulas de violão e virgindades perdidas em hotéis fuleiros. Não existem atalhos para entender as contradições humana. É a lição que passam os grandes escritores, e que True Tears, a despeito de sua simplicidade, parece querer aprender.

De fato, uma encantadora de galinhas pode não ser a mais inspiradora das imagens, mas traz uma mensagem bem verdadeira: todos somos estranhos à nossa maneira, e é essa estranhice que faz de nós pessoas completas.

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A medida de uma pessoa

Infelizmente, para além da ambientação inspirada, há pouquíssimo a recomendar em True Tears. Shinichirou, Hiromi, Noe e o elenco de coadjuvantes agem como se carregassem o peso do mundo nas costas, mas não há nada nas suas vidas que mereça tanta agonia.

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Shinichirou vive cercado de garotas e sente que sua relação pode ir além da amizade. Jovem que é, não sabe interpretar os sinais e tem medo de ceder ao desejo por conveniência, e não por afeto.

“Medo de não amar: pior que o medo de não ser amado”, já dizia Virginia Woolf. Uma pena que True Tears não chegue perto da astúcia da escritora.

A primeira coisa minimamente parecida com um conflito surge próximo à metade da série. Um álbum de foto antigo sugere que Hiromi pode ser sua irmã ilegítima. Ao mesmo tempo, o irmão de Noe, um descolado que pilota uma moto, ameaça virar o mundo de Shinichirou de pernas para o ar.

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Todos conhecemos o tipo. Ele é o bad boy charmoso que não segue regras e rouba corações com seu ar blasé. É aquele adolescente precoce que entende que beijar é só um ato e que sexo não implica em fidelidade eterna.

Shinichirou o teme porque, no fundo, quer ser como ele. Sem o mesmo charme, apela para a maior mentira da adolescência: o chororô do “primeiro grande amor” e dos “sentimentos incompreendidos”, que afeta garotos virgens tal como pulgas a vira-latas.

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Pois amoricos juvenis, no fundo, tem muito pouco de “amor”. Gostamos de “gostar” da pessoa, mais do que da pessoa em si. A ilusão romantizada de viver uma grande paixão (bônus se ela não for correspondida) passa a imagem de que nossa vida tem um quê de extraordinário.

Nossa dor de cotovelo não passa de narcisismo. E ter a coragem de admitir isso a nós mesmos faz parte do ato de crescer.

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O casal mais maduro da série

Sei que é injusto colocar isso contra o anime. Afinal de contas, adolescentes são mesmo assim. Os grandes problemas e responsabilidades da vida só chegam até nós mais tarde.

Nessa época “mágica”, é difícil entender que o número de pessoas que beijamos e nossa vontade de dormir com a colega são, no grande plano das coisas, irrelevantes. Como dizia Don Draper, “o universo é indiferente”.

O problema é que o que funciona na vida nem sempre funciona na ficção. E animes já entregaram exemplos tão potentes (e verossímeis) de sofrimentos juvenis que a série da P. A Works acaba perdendo seu brilho.

Apenas de 2008 para cá, tivemos séries sobre depressão (Sangatsu no Lion), perda de amigos (Ano Hana), abuso parental (Shigatsu wa Kimi no Uso), suicídio (Orange) e traumas de filhos adotados (Omoide no Marnie).

Perto de tudo isso, as “lágrimas” de True Tears parecem de crocodilo.

Uma emoção mais forte que a ideia

Ralph Vaughan Williams certa vez escreveu:

Ele sempre “chega lá”. Nenhum movimento falha; cada emoção que ele sente ele consegue traduzir em música com a facilidade de um linguista russo. E aí está sua maior fraqueza: sua expressão muitas vezes é intensa demais para a emoção por trás dela. O próprio fato de que para ele a expressão vem com tanta facilidade faz com que ele não consiga julgar se sua ideia merece mesmo ser expressada. Ele não consegue distinguir o sentimento falso do verdadeiro.

O compositor inglês falava de  Tchaikovsky, mas suas palavras caem feito uma luva para True Tears. 

Muitos estúdios enxergam a adolescência com os olhos da vida adulta, interpretando o colégio como uma “calmaria” antes da “tempestade” de escritórios, contas para pagar e impostos a declarar. A P.A. Works, que produziu o anime, preferiu contar a história do ponto de vista dos próprios adolescentes.

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Porém, assim como suas personagens, True Tears se leva a sério demais. Preocupado como está com sentimentos verdadeiros e amores não correspondidos, o anime esquece de que na adolescência há também o ridículo, o imaturo, o obsceno.

Com um toque de cool californiano, a série da P.A. Works poderia virar um O Verão da Minha Vida ou As Vantagens de Ser Invisível, filmes despretensiosos, igualmente honestos no retrato da juventude, mas maduros o suficiente para não colocá-la num pedestal.

Há uma razão pela qual tantas pessoas olham para a adolescência com nostalgia. É a época por excelência em que podemos rir de nós mesmos.

Ao ignorar isso, True Tears sofre o destino de Ringomaru. Embora deseje voar, nunca é capaz de sair do chão.

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E aqui termina minha contribuição à Corrente de Reviews 2016! Agradeço de coração ao Diogo Prado do Anikenkai, por me permitir participar dessa iniciativa que já tem rendido textos sensacionais.

Agradeço também ao Carlírio do Netoin!, sem o qual não teria tido a oportunidade de conhecer True Tears. Embora nossas opiniões sobre o anime sejam um tanto diferentes, espero que tenha gostado do texto!

Semana que vem é a vez da minha indicação! Fique de olho no Blog do Dulcelino Neto e em sua review de Mnemosyne no Musume-tachi: um anime polêmico, provocativo, mas bastante interessante.

Confira também as outras resenhas na página oficial da Corrente

Até a próxima!

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

2 comentários em “Corrente de Reviews 2016: “True Tears””

  1. Saudações

    Nobre, tal como eu havia citado ao final de meu post que antecedeu o seu na Corrente de Reviews, ter muitas opiniões diversas sobre uma mesma obra é digno.

    Me permite apenas uma colocação…
    Sempre que pego um anime mais antigo, prefiro não compará-lo (não que isto tenha ocorrido em vosso texto) e, se for o caso, sequer citá-lo em um mesmo grupo com títulos mais atuais (embora exista a importância e às vezes isso acabe acontecendo comigo). Todas as obras que sua pessoa citou me são admiráveis mas, assim como ocorreu com True Tears contigo, tais títulos por ti nomeados infelizmente não são uma unanimidade nem em seus próprios fandons.

    Realmente, até hoje True Tears me tem um sólido espaço reservado no top’10 de toda a minha vida. E acredito que isto dificilmente mudará algum dia. Talvez eu tenha assistido-o em um momento mais oportuno (maio de 2008), talvez não seja por isto também. Me lembro, inclusive, do quanto chorei em certos momentos da obra, em especial no último episódio (mesmo quando assisto novamente o anime, uma vez ao ano, choro novamente nos mesmas passagens).

    Saudosismo exagerado o meu? Talvez seja. De fato, pode ser esta a melhor definição.

    No mais, gostei da sinceridade em seu texto (além do mesmo ter sido exemplarmente bem redigido). Por mais que realmente existam pontos nos quais eu não concorde com as suas palavras (o que diretamente significa que existem também as linhas de concordância por minha parte), o importante é que foi concretizado aquilo que a minha pessoa buscava, quando indiquei este anime.

    Tenha a certeza plena de que o seu texto ficou muito bom, nobre.

    Até mais!

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    1. Olá Carlírio,

      Muito obrigado pelo comentário!

      Apenas uma colocação: como historiador, evitar comparar obras recentes e antigas é algo que sou filosoficamente contra. Acredito que a cultura humana é atemporal e que contrapor o presente ao passado é o caminho para situar nossa própria época. É por isso que não me esquivo de descrever True Tears com as palavras de uma escritora morta em 1941 e de um compositor falecido em 1958.

      Há também um argumento prático: os leitores que não conhecem True Tears obrigatoriamente o verão através do prisma das séries contemporâneas. Creio que é meu dever, em uma crítica, orientá-los sobre o que esperar.

      Eu entendo seu ponto quando nos referimos a animes tecnicamente defasados – de fato, jamais diria que um clássico do Leiji Matsumoto é ‘mal animado’ em comparação com um lançamento da KyoAni – mas esse decididamente não é o caso de True Tears. Pelo contrário”, ele é mais bonito que vários animes das últimas temporadas.

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