Profissionais do Cosplay: Pri Suicun

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Nessa coluna, eu trago a vocês depoimentos daqueles que, de uma maneira ou de outra, se transformaram em “profissionais” do cosplay. Para alguns, foi uma atividade paralela, uma forma, muitas vezes, de custear os próprios trajes. Para outros, uma segunda vida fazendo aquilo que mais amam. Para outros, ainda, uma profissão à qual se dedicam noite e dia.

Ouvir Pri Suicun falar sobre cosplay, seja em depoimento, seja em seu canal no Youtube, é uma verdadeira imersão no hobby. Há mais de uma década trabalhando no meio, Pri já viu convenções surgirem e desaparecerem, confeccionou figurinos para todos os propósitos e vivenciou histórias das mais cabulosas.

Eu tive o privilégio de lhe fazer algumas perguntas sobre sua experiência, o cosplay no Brasil e o lado que ninguém conta sobre a vida de cosmaker.

Confiram a entrevista abaixo:

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Qual é a sua idade e há quanto tempo trabalha com cosplay?

Tenho 27 anos e trabalho com cosplay há 12 anos xD

Como cosmaker, como é sua rotina de trabalho? Você trabalha em casa ou possui um atelier? Do primeiro contato até a entrega, como funcionam as suas encomendas?

Eu trabalho em casa, normalmente quando tenho encomenda começo a costurar às 8h e tento parar lá pelas 18h… mas nem sempre dá e acabo indo até umas 23h xD Normalmente o cliente me manda mensagem dizendo o que quer e eu faço os orçamentos e digo quando fica pronto. Aí o cliente fecha ou não. Quando é empresa é a mesma coisa.

O que alguém encontrará sem falta em um ateliê/casa de uma cosmaker? O que é necessário para que alguém se dedique a isso seriamente (em termos de espaço, equipamento, etc)?

Pelo menos 1 máquina de costura caseira, inúmeros tecidos organizados num armário ou estante, moldes, réguas… e agenda! Não precisa de muitas coisas, eu comecei dessa forma. Hoje tenho 1 máquina de costura reta industrial, 1 máquina de costura caseira e 1 overlook [para acabamentos], além de um vasto material separado como rendas, botões, tecidos, malhas, colas, tintas, pedrarias…. e tem que manter tudo organizado, pois isso fará o trabalho render.

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Você faz os figurinos para os comerciais da Ubisoft. Você pode contar um pouco sobre sua experiência com a produtora? Como você começou a trabalhar com ela?

Comecei a trabalhar fazendo figurinos pra Ubisoft através da Paramaker [ Parafernalha, Felipe Neto etc]. A empresa fechou um contrato para fazer os comerciais de lançamentos dos jogos  Assassin’s Creed, Splinter Cell Blacklist e Watch Dogs. Foram meses de trabalho enlouquecedor e bem produtivo com inúmeros encontros com o ator que fazia parkuor, além das explicações de como a roupa tinha que ser para o ator não ter problemas para fazer os movimentos, já que no caso de Assassin’s Creed, as gravações sempre foram intensas. Depois dessa, ainda trabalhei por 3 anos fazendo figurinos para todos.

Para além da confecção, você já realizou outros trabalhos envolvendo o cosplay (ex. em convenções, workshops, cursos, etc)?

Eu participo anualmente de ateliês de carnaval, e isso ajuda MUITO para saber novos materiais para figurinos e cosplays no geral. Ainda pretendo lançar um curso falando de tudo o que sei de materiais diversos. Fora isso, já fui palestrar em faculdades, participei de desfiles de moda no Fashion Rio e personagem vivo em festas e lançamentos.

Você já fez algum trabalho relacionado a cosplay fora do mundo “nerd” propriamente dito? (eventos corporativos, festas infantis, filantropia, ações promocionais?)

Sim! Eventos de lançamentos de filmes, lançamentos de brinquedos, palestras sobre moda e cosplay e desfiles de moda no Senac sobre cosplay.

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Você comentou em um depoimento que parou de frequentar concursos depois de ter sido hostilizada por concorrentes. Outra cosplayer que entrevistei me contou que, em seu país, os problemas com falta de fair play se tornaram tão graves que as competições passaram a ter dificuldade em arranjar quórum. Você acredita que esse seja um problema sistemático na cena cosplay brasileira? É comparável aos atritos que ocorrem em outras modalidades artísticas, profissionais ou acadêmicas?

Olha, te falar que pelo que vi, é comum isso ocorrer, ser hostilizado por concorrentes, falarem mal, te difamarem… infelizmente é comum. Depois desse fato que ocorreu comigo, parti para fotografia e… fiquei famosa no DeviantART e logo depois no World Cosplay por ficar sempre no ranking.

Isso gerou outro tipo de intrigas e invejas, mas ninguém via o quanto eu gastava pra investir em fotos, o quando eu comprava de tecidos pra fazer roupas melhores e que fotografavam melhor. É um fato que cosplay se divide em algumas áreas: Cosplay de foto e cosplay de apresentação são os mais comuns, sendo bem raro alguém exercer ambos. No caso de Cosplay de apresentação a concorrência fica ‘pesada’ no nível de tem sempre os mesmos competidores e nunca novos. Os novatos nunca conseguem permanecer ou por falta de preparo ou porque já o envolveram em alguma ‘treta’ fictícia pra o mesmo ficar mal e não querer mais subir no palco. Não estou falando que são todos que fazem isso, mas já vi ocorrer, até porque também sou jurada de cosplay em alguns eventos.

Já vi concorrente jogar suco de uva no cosplay do ‘concorrente’ cuja roupa era branca, para o mesmo perder pontos em fantasia, assim como já vi discussão de pessoas quebrando o cenário de outros concorrentes antes de entrarem no palco. Então SIM, o ‘mimimi’ , a inveja, a falta de caráter é igual em todas as profissões ou áreas em que você vai trabalhar. Só muda a temática.

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Você circula pelo meio cosplay há muito tempo. Ao longo de todos esses anos, o que mudou? O que continua igual? No geral, as coisas melhoraram? Existem problemas recentes que não existiam no passado?

Meio termo xD. As coisas melhoraram no quesito conseguirmos comprar perucas, lentes e cosplays de fora que são bem baratos comparados com aqui [e no caso de peruca é só importação mesmo]. O Ebay, Taobao e AliExpress facilitaram MUITO a vida de todos! Já deu pra ver que os brasileiros não perdem em nada pros cosplayers de fora que vemos em fotos.

Tem problemas novos sim… sempre inventam alguns xD O atual é que comprar cosplay de fora não é dito ‘fazer cosplay’. Gente, isso é bem estúpido…. Se a pessoa não sabe fazer um cosplay do zero, é bem óbvio que ela irá contratar alguém para fazer o cosplay inteiro, seja uma costureira aqui no Brasil ou importar do Taobao. Comprando, importando ou fazendo você mesmo, tudo é cosplay, o que importa é se divertir e não tretar por nada~~ Tem gente que reclama por conta de ‘likes’ no facebook, esses eu costumo até ignorar pois não vale a pena discutir com alguém que só se importa com números de ‘likes’ e não em melhorar o trabalho no geral.

A Jaqueline Abrão, que também tive o prazer de entrevistar  , disse que a Comic Con Experience teve grande importância para divulgar o cosplay no país. De fato, há quem diga que hoje, com nossos eventos de grande porte e alta projeção midiática, vivemos o auge da “cultura nerd”. Por outro lado, há quem argumente que a influência dos grandes veículos de mídia está mudando o meio para pior. Um exemplo citado é o da própria San Diego Comic Con  Segundo algumas pessoas, a popularidade da cena nerd inflacionou os preços de estandes, restringindo o evento às mãos de grandes corporações e alienando os exibitores mais antigos – entre eles, alguns que prestigiavam a convenção desde a primeira edição. Qual é a sua opinião sobre isso? Como você avalia esse momento atual na cena geek/otaku?

Então, eu também fui estande [com empresa] por 10 anos em eventos pelo Brasil. Mudou muito o cenário aqui sim, e lá fora, pois tem uma imensa gama de opções de importação e produtos atualmente.

Na real, o mercado de animes e games é gigantesco, antigamente não sabíamos de nada. Junto com o Ebay e Taobao se abriu um leque de opções do que fazer, no que trabalhar/ importar, e claro, a indústria se movimenta se está dando retorno financeiro.

Logo, sempre haverá mais itens colecionáveis do que vc gosta. Os eventos ajudaram isso a ficar acessível para o público, que não tinha ideia que isso existia. MAS, aí começa a ocorrer o que houve há 3 anos – e que ainda enfrentamos – que é a saturação no mercado e crises.

Entendam a pirâmide: Locais para locação de eventos aumentam os preços para pagar as contas e repassam isso para o organizador. O organizador repassa esse valor dividido entre os estandes/empresas/pessoas jurídicas, no qual esses tem que rever o valor das mercadorias para valer a pena ir ao evento pagando estande, então o produto final chegará mais caro ao consumidor, ao qual já está sem dinheiro por conta da crise financeira no Brasil. Aí nesse caso é esperar essa alta de preços passar junto com a crise.

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Eu fui uma que fechei minha empresa de importação para não ter prejuízo e permaneci com a costura de cosplays e figurinos no geral. E quando passar essa crise, é provável que eu reabra a empresa, assim como muitos amigos meus estão fazendo. E sobre as TVs, nunca vi uma emissora tratar cosplayer como pessoa normal, só vi tratarem como alienados, fuga da realidade e pessoas com problemas. Então eu costumo fugir de imprensas e reportagens xD

Você disse em um depoimento que desenvolveu tendinite e alergia a veludo após mais de uma década confeccionando cosplays. Isto a teria obrigado a limitar suas atividades como cosmaker. Você também comentou que problemas como esses são frequentes com quem trabalha com corte e costura, a ponto de costureiras terem uma vida útil como professionais que raramente passa de 10 anos. Essa é uma questão muita séria, que dificilmente vejo mencionada. Na sua opinião, isso inviabiliza o cosmaking como uma profissão no longo prazo? Existe algo que cosmakers e aspirantes a cosmakers possam fazer para seguir fazendo aquilo que gostam (similar, presumo, ao que é feito no ramo da costura)?

Sim! Isso não é falado nunca, pois você só descobre isso na faculdade de moda xD A vida útil de uma costureira é de 10 anos, após isso é aposentadoria por invalidez. Em todos os casos é comum ter tendinite pelo movimento repetitivo com a tesoura.  Isso dificulta sim o trabalho, eu claramente não costuro hoje como costurava há 5 anos… O que dá para fazer é manter o médico em dia [sim! Ortopédico principalmente] e cortar com luvas próprias [tem umas almofadas onde fica a tesoura xD ] ou cortar com a máquina de corte [aconselhado treinamento antes]. E não extrapolar muito.

É possível para uma cosmaker migrar ou avançar para áreas análogas? Por exemplo, começar a carreira produzindo cosplays e eventualmente trabalhar com vestuário de cinema? Há quem tenha feito isso?

É possível sim, eu mesma fiz figurino pra teatros e carnaval. O importante é saber o que você quer seguir para saber o que fazer na real. Eu sempre gostei de figurino, então qualquer coisa que se encaixe em figurino eu irei fazer de bom grado ❤

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A maioria dos cosplayers usa pseudônimos. Você pode me falar um pouco sobre este hábito? Você sabe qual é a origem da prática?

Verdade, eu uso um xD

Talvez porque não queiram usar o seu nome mesmo … Eu gosto do Pri do meu nome e queria colocar Yue [porque é meu personagem favorito], MAS eu via que era muito comum terem nick como Yune, Yune, Yuna, Yue por conta dos personagens mais famosos, então na aula de japonês [quando eu fazia xD ] gostei de ‘Suicun’ que significa ‘despertar da aurora’ ou ‘amanhecer’ e mantive assim xD.

Acho que todos usam outros nomes pra desvincular as vezes da pessoa ‘normal’ pois muitos tem família que não gosta ou muda o ramo de trabalho.. como por exemplo um médico que é ok com cosplay, mas o resto das pessoas com quem trabalha tem o preconceito com o cara vestir cosplay. Mas ele precisa trabalhar como médico, então usa um pseudônimo pra ter o hobby ativo e não ter problemas =)

 E você? Trabalha ou trabalhou com cosplay e tem uma história interessante para contar? Entre em contato com a página.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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