Profissionais do Cosplay: Panshi Cosmaker

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Créditos: M Photos

Nessa coluna, eu trago a vocês depoimentos daqueles que, de uma maneira ou de outra, se transformaram em “profissionais” do cosplay. Para alguns, foi uma atividade paralela, uma forma, muitas vezes, de custear os próprios trajes. Para outros, uma segunda vida fazendo aquilo que mais amam. Para outros, ainda, uma profissão à qual se dedicam noite e dia.

marcelo-e-monalisaMarcelo Rocha e Monalisa Medeiros, mais conhecidos como Panshi Cosmaker, não imaginavam que fariam do cosplay a sua vida. O que começou como um passatempo logo se tornou uma profissão: o casal de cosmakers adquiriu seu próprio ateliê e hoje se dedicam integralmente a dar vida a personagens.

Tive a oportunidade de conversar com o Marcelo, que me contou sobre seu início no mundo do cosplay, o passo a passo em levar os figurinos do papel às mãos dos cosplayers e o que pensa sobre o futuro do meio.

Confiram a entrevista abaixo:

Qual é a sua idade e há quanto tempo trabalham com cosplay?

Marcelo Rocha, 37 anos. Trabalho com cosplays há 2 anos e meio.

Monalisa Medeiros, 33 anos. Trabalha há 4 anos na área.

O que os levou a escolherem trabalhar com cosplay? Foi algo que sempre desejaram fazer?

Na realidade, tudo começou de um passatempo, quando a Mona resolveu fazer uma capa de Harry Potter para sua filha ir a uma festa de aniversário do mesmo tema.

Todos elogiaram, e ao postar a foto de sua filha no Facebook muitos curtiram, inclusive uma pessoa do Rio de Janeiro, pai de uma menina que ficou apaixonada quando viu a capa. Pediu que fizesse uma e enviasse para o Rio e pagou o valor solicitado. Assim que recebeu, fez referências positivas ao serviço da Mona, onde criou o interesse de outros usuários do Facebook, e a Mona passou a fazer, nas horas vagas, fantasias do Harry Potter.

Passaram a solicitar outras fantasias, e a Mona foi confeccionando, e o grau de dificuldade e os pedidos, aumentando. Suas horas vagas foram ficando curtas e ela pediu minha ajuda para que eu cuidasse da parte de acessórios e, principalmente, da administração do dinheiro e dos clientes.

No começo achei que era brincadeira, mas vi que era real e passei a assumir aquilo que antes era considerado hobby. Larguei uma carreira de consultor técnico no setor automobilístico, fiz acordo com a empresa que trabalhava há 5 anos e com o dinheiro investi em maquinários, abri firma, regularizei a empresa e aluguei um imóvel comercial, pois o que antes tinha se iniciado num fundo de um quarto de 3m x 6m já não era suficiente para comportar a Panshi.

Mudamo-nos para Santos, alugamos um apartamento próximo ao ateliê que também fica em Santos e hoje estamos na atividade, crescendo a cada dia e buscando sempre desafios.

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Geysa Cardena e Beah Trindade. Créditos: Johnny Photography

Como cosmakers, como é sua rotina de trabalho? Vocês trabalham em casa ou possuem um atelier? Do primeiro contato até a entrega, como funcionam as suas encomendas?

Trabalhamos de segunda a sexta, das 7:30h, quando deixamos os filhos na escola, até as 17h, quando encerro as atividades, pegamos as crianças na escola e voltamos para casa. Enquanto a Mona cuida das crianças, casa e jantar, eu já me preparo para o “segundo tempo”, que seria responder os orçamentos, conversar com os clientes, fazer pesquisa de materiais e cobrar fornecedores via e-mail, ou seja, todo o trabalho burocrático.

Começo às 19h e termino por volta da meia-noite. Frequentemente prolongo o atendimento até as 2h da madrugada pois os clientes potenciais estão disponíveis neste horário, quando voltam da escola, faculdade, ou até mesmo estão jogando online. Os fins de semana são reservados à família, porém quando temos atendimento de clientes locais que solicitam provar o cosplay ou até mesmo tirar medidas e dúvidas pessoalmente, reservamos o sábado no período da manhã para este atendimento especial.

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Temos ateliê próprio. Ele tem o setor de confecção, estoque, oficina de acessórios e atendimento ao público, no próprio setor de confecção. É um prédio com dois andares, e setores isolados.

O primeiro contato com o cliente é através do orçamento. Assim que ele é aprovado, o cliente efetua a entrada é enviamos um contrato com todos os detalhes do que foi concordado e mais um manual de medidas, para que seja feita a aferição. O prazo se inicia após a devolução dos documentos preenchidos e assinados. Feito isso, é confeccionada uma ordem de serviço com todos os dados do cliente, do cosplay e detalhamento de exigências, e esse documento segue para o setor de modelagem.

Já na modelagem, é calculado a quantidade exata de material que será utilizado, para assim criar uma lista de materiais que serão pesquisados entre os fornecedores; encomendamos e logo são faturados juntamente com materiais de outros cosplays. Assim que o material chega, fazemos a distribuição dos materiais para cada cosplay, e no setor de confecção os materiais são cortados e modelados.

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Raining Cosplayer. Créditos: Johnny Photography

As peças cortadas (no caso tecidos e aviamentos) são enviadas para costureiras terceirizadas, quando a modelagem eh fácil, juntamente com ficha técnica, para identificação das peças. Quando o cosplay é mais elaborado, no caso de haver necessidade de moulage ou utilização de courino, emborrachado e pintura, o cosplay é confeccionado totalmente no ateliê da Panshi.

Quando as peças ganham forma, passamos a entrar em contato com o cliente para descrever o andamento do processo. Não costumamos enviar fotos de cada processo, pois o cliente, ansioso com o resultado, passa a não entender que se trata apenas de processos e não do resultado final, e começa a querer mudar detalhes do cosplay não finalizado.

Tivemos problemas inicialmente com clientes que participaram ativamente do processo de todo cosplay e o resultado não foi como esperado, pois o cliente mudava a todo momento materiais, cores e aviamentos, e quando finalizou não era o esperado; voltamos o cosplay do zero para consertar e tudo saiu melhor conforme nossa autonomia.

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Assim que finalizamos a confecção, o cosplay passa pelo setor de qualidade, onde é conferido as medidas, acabamento, e se tiver algo errado, retorna para a costureira, e só depois que passa pela qualidade enviamos a foto do cosplay pronto para o cliente.

É nessa momento que o cliente pode opinar se gostou do resultado ou se faltou algum detalhe, pois podemos – tanto ele quanto nós – ter uma ideia verdadeira da linguagem de cada parte. O cliente dando o aval, o cosplay é embalado e pesado para cálculo do frete.

O valor é repassado ao cliente que fica encarregado de depositar a quantia, emitimos a solicitação de etiqueta no Sigep (sistema dos correios para as empresas que tem contrato) e aguardamos a retirada do pacote pelo caminhão dos Correios.

Quando o pacote ultrapassa os limites de tamanho permitidos pela ECT, enviamos por transportadora, pois trabalhamos com diferentes empresas onde fazemos a cotação do melhor custo-benefício para o cliente, e também disponibilizamos a retirada feita pelo próprio cliente.

Assim que enviamos o código de rastreio solicitamos ao cliente que informe assim que receber o cosplay, pois oferecemos garantia no caso de divergência de medidas (quando comprovado erro de nossa parte) e em avarias causadas pelo transporte durante a entrega. Neste caso enviamos PAC reverso ao cliente que reenviará o cosplay novamente, sem custo algum, para que efetuemos o reparo.

Ficando pronto, enviamos novamente o produto ao cliente, com frete grátis, e aguardamos o recebimento do produto pelo cliente. Caso o produto apresente discordância pela segunda vez, o cliente fica responsável apenas pelo custo de envio, e na terceira, cobramos taxa de reparos. Nunca aconteceu do produto sofrer avaria pela segunda ou terceira vez, mas temos a política de dar suporte ao cliente no pós-venda sempre que necessário.

Vocês se dedicam integralmente a isso, ou mantém outras profissões?

Nos dedicamos inteiramente à Panshi, eu, Marcelo, Deixei pra trás uma vida inteira que dediquei a área automobilística, fiz diversos cursos, fui professor no SENAI, passei  pelas maiores concessionárias, Taís como Honda, Volkswagen, Ford, Jac, e não me arrependo, pois hoje faço o que gosto, conheço muitas pessoas e me divirto com as novas experiências adquiridas.

Vocês trabalham em dupla. Na prática, como funciona a divisão de tarefas?

Antes, a divisão de tarefas era bem nítida, eu fazia a parte de acessórios, e a Mona, a confecção. Hoje tivemos que remanejar, eu faço toda parte de acessórios, administração, orçamento e a Mona gerência a parte da confecção, pois a costura boa parte é terceirizada para costureiras.

Vocês atendem apenas cosplayers ou também praticantes de outras formas de performance (LARPG, figurinos etc)? Existe um intercâmbio entre o cosplay e estes outros mundos?

Atendemos inicialmente o público geek e cosplayers, o público infantil com fantasias temáticas de aniversário, empresas de animação infantil, empresas de games, figurinos teatrais e uniformes especiais.

Existe uma linha tênue entre o mundo cosplay, onde a pessoa personifica seu personagem favorito por hobby e o comércio do entretenimento, onde o personagem fictício vira um atrativo com fins lucrativos.

Muitos de nossos clientes iniciam a utilização do cosplay por diversão, mas por ser tao fiél acabam sendo chamados para trabalhar com o personagem e são chamados para eventos, festas e freelances.

Que tipo de marketing vocês fazem para seu trabalho? Quais canais vocêm exploram? Quanto de tempo e energia vocês investem nisso?

Investimos pouco, utilizamos Instagram, YouTube, Twitter, Facebook, blogger, para a divulgação dos nossos trabalhos. Mais adiante investiremos mais.

Em adição ao cosmaking, vocês também fazem cosplay, participam de concursos, etc? Esta vivência é necessária para quem deseja entrar no ramo?

 No início, não tínhamos tempo de nos dedicarmos a projetos próprios, pois a dedicação aos projetos de nossos clientes no tomava todo o tempo. No fim do ano passado encontramos tempo de participar de um campeonato de cosplay na cidade do Rio de Janeiro, onde eu ganhei o primeiro prêmio é a Mona, o segundo.

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Créditos: André Pezzino

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Acabamos levando pra casa uma premiação no valor de R$ 4 mil reais, um bom prêmio pra iniciantes! É extremamente importante participar dos eventos. Apesar de nossa participação única, vamos como visitantes comuns aos eventos, para conhecer o público de forma neutra, e saber o que há de novo no mundo geek.

Vocês trabalham exclusivamente com confecção, ou já realizaram outras atividades remuneradas envolvendo o cosplay (ex.: em convenções, workshops etc)? E quanto a estandes em eventos?

Já participamos de oficinas e workshops, sorteios em eventos, mas nada remunerado, na época fizemos para alavancar o nome da empresa. Hoje já não fazemos por falta de tempo.

Você já fizeram algum trabalho relacionado a cosplay fora do mundo “nerd” propriamente dito? (eventos corporativos, festas infantis, filantropia, ações promocionais?)

Sim, já fizemos uma apresentação filantrópica numa escola estadual da cidade, com a apresentação das princesas do Frozen. Já fizemos também doação de cosplay para uma integrante do Doutores da Alegria, no estado do Pará, se não me engano.

Cosplays frequentemente são mencionados em discussões sobre direitos autorais. Em tese, character designs são propriedade de seus respectivos estúdios/editoras, e qualquer lucro sobre eles é vetado a terceiros. Vocês já tiveram ou testemunharam algum problema em relação a isso? Vocês acreditam que isso possa ser um fator limitante para o crescimento da profissão?

Nunca presenciamos ou tivemos conhecimento de problemas relacionados a direitos de imagem de um personagem de anime/filme. Acredito que isto não seja problema, pois se trata de uma homenagem ao personagem favorito, e ninguém que se veste com qualquer personagem se auto-intitula como o “original” ou “verdadeiro”.

Ganha atenção especial aquele que se torna fiel, e nossos clientes acabam recebendo esta atenção. Nunca pensamos que isso poderia vir a se tornar um problema para o crescimento da profissão, isso nunca aconteceu antes.

Como vocês vêem o futuro profissional do cosplay? Vocês acreditam que o mercado esteja crescendo ou diminuindo?

Nós particularmente acreditamos num crescimento monstruoso, principalmente com a popularidade dos jogos online e dos filmes dos nossos heróis do passado, da nostalgia ganhando foco.

Com a facilidade de acesso à informação em nossas mãos, o público tem contato direto com os animes, filmes, jogos, e essa vivência mais agressiva faz com que os jovens queiram entrar no personagem, e os adultos a reviverem o passado numa homenagem saudável aos heróis de infância.

O mercado cresce pra quem acompanha as mudanças, se atualiza com as novas tecnologias, e principalmente, quem tem mente aberta pra receber e processar tudo isso. Nós da Panshi somos tudo isso, e sempre abertos a novas experiências, com o único foco de transformar sonhos em realidade, independentemente em que plataforma seja.

 E você? Trabalha ou trabalhou com cosplay e tem uma história interessante para contar? Entre em contato com a página.

 

 

 

 

 

 

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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