‘Otakontro’: por dentro de uma convenção de anime

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Não dá para negar. Convenções são uma das forças vitais da cena otaku. Sem esses espaços para conhecer novos fãs, adquirir merchandise e prestigiar as franquias que amamos, é muito provável que o anime não teria superado o seu terrível estigma de anos atrás.

De lá para cá, muita coisa mudou. Para aqueles que se lembram de como tudo começou, não necessariamente para melhor.

Por um lado, eventos como a CCXP colocaram o Brasil no mapa das grandes convenções. A cobertura midiática da cena otaku nunca foi maior. Nos grandes centros urbanos, eventos nunca foram tão grandes e, a despeito de seus problemas, suas instalações já foram muito piores.

Por outro lado, convenções parecem estar perdendo sua essência. A celebração da cultura japonesa, de protagonista, tem passado ao banco de passageiro. A chegada da velha “cultura pop” à cena mainstream nos levou a um ponto onde é difícil separar uma da outra. Exceto para alguns velhos fãs, que sentem que seu mundo está desaparecendo.

Essa, pelo menos, é a opinião de Pablo Santos, organizador do Otakontro na Baixada Santista. Se você não reconhece a convenção de nome, deve com certeza reconhecê-la de reputação. O evento ganhou popularidade ao se anunciar como um encontro old school, sem a presença de youtubers.

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Eu tive a oportunidade de bater um papo com o Pablo e conhecer mais sobre o evento. Na nossa conversa, ele me contou sobre os bastidores do Otakontro, a penetração dos youtubers na cena otaku, o futuro das convenções e muito mais.

Confiram a entrevista abaixo:

O que é o Otakontro? De onde surgiu a ideia de organizá-lo? De 2009 para cá, como está sendo a resposta do público?

O Otakontro é um encontro de admiradores da cultura japonesa popular como animes, música e jogos. A idéia surgiu em meados de 2009, quando um grupo de amigos resolveu se reunir numa praça pública para conversar sobre o assunto.

O encontro durou até 2011, quando os organizadores originais não puderam seguir com o projeto. O público está sendo 100% receptivo com a idéia, pois não somente na baixada santista mas no país inteiro, vários eventos se dizem de um tema e para garantir público, contratam algumas pessoas que criam conteúdo para o YouTube mas que nem sempre condizem com o tema do evento.

O Otakontro se descreve como um tributo à era de ouro dos eventos de anime na Baixada Santista. Como era esta época? O que fazia dela tão interessante?

A época de ouro dos eventos não é somente na Baixada Santista, mas em todo o país. Era uma época em que as atrações principais eram dubladores e a principal idéia era a reunião de pessoas que gostavam do tema para se conhecer e fazer novas amizades.

O Otakontro já foi caracterizado como o “evento mais old school dos últimos tempos e se propõe a “recuperar a essência oriental” que caracterizava convenções em outras épocas. Muitas pessoas consideram que vivemos no auge da cultura nerd/otaku. Por outro lado, há aqueles que apontam que algumas coisas vêm se perdendo. Ao conhecer o Otakontro, não pude deixar de me lembrar da San Diego Comic Con, e de como alguns de seus exibitores mais tradicionais acabaram afastados quando a popularidade atraiu a atenção das grandes corporações de entretenimento. Como você enxerga a cena de convenções no Brasil? O que você acha que melhorou ou piorou com chegada do universo nerd na cena mainstream?

Acreditamos que a evolução é natural, assim como a expansão, mas para isso, deve-se saber o que fazer e como fazer. Algumas empresas no Brasil pegam temas aleatórios para criar uma convenção e acabam se perdendo sem saber qual a própria proposta. Acredito que o apoio das grandes empresas é algo muito bacana e que esperamos acontecer durante décadas, mas os organizadores devem saber como apresentar isso ao público de forma que não atrapalhe outras atrações e que seja mais um agregador do que um causador de discórdias e críticas negativas entre os visitantes do evento.

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Hoje em dia, é muito comum encontrar as palavras “nerd” e “geek” usadas para descrever fãs de todo tipo de cultura pop. O próprio Finisgeekis é fruto dessa mentalidade, abordando desde games da Paradox até literatura japonesa. No entanto, pude perceber que há certa antipatia entre otakus em relação a canais “nerds”. Muitos os acusam de priorizar conteúdo ocidental, no qual têm pouco ou nenhum interesse. Na sua visão, essa distinção entre tribos se reflete no circuito de convenções? Ou parecem ser todos parte de uma mesma comunidade?

Eu particularmente nunca vi algum caso de desrespeito ou menosprezação de alguém em cima de outra pessoa por conta de preferir uma cultura oposta. Muito pelo contrário, geralmente nos eventos você encontra fãs de um lado mais oriental e de um lado mais ocidental conversando, dividindo atividades e socializando de um modo geral sem julgamento de preferências.

Recentemente, tive a oportunidade de entrevistar vários cosplayers e cosmakers como parte do projeto Profissionais do Cosplay . Alguns deles já trabalharam como hosts em eventos otakus ou nerds. Como organizador de uma convenção, como você enxerga essas possibilidades? Cosplayers profissionais já se tornaram uma presença frequente na cena otaku? Aqueles que sonham em trabalhar com isso encontram bastantes oportunidades?

Nós temos o maior carinho e apreço pela comunidade cosplayer, estamos disponibilizando uma sala inteira para estúdio, temos camarins exclusivos e ainda várias outras surpresas que vão ser reveladas a quem for no Otakontro.

Acreditamos que o cosplay além de hobbie é um trabalho no qual a pessoa dedica dinheiro tempo e suor para que saia da melhor forma possível. Hoje o mercado é bem mais amplo, com diversas empresas contratando aqueles que se destacam na arte, especialmente para juri de concursos cosplay. Toda a bancada do Otakontro é formada por profissionais que trabalham já a anos com o cosplay.

A Otakontro em si já contratou cosplayers como promotores, ou pretende fazê-lo em edições futuras? Seus expositores têm o hábito de fazê-lo?

Nosso plano para este ano é mostrar a todos que retornamos e que vamos continuar o trabalho duro por um evento de qualidade. Futuramente, iremos trabalhar não somente com cosplayers durante o evento, mas vamos criar concursos e patrocinar photoshoots algumas vezes durante o ano. Os cosplayers que forem escolhidos ou ganharem os concursos, vão ganhar ensaios completos com direito a editores profissionais e making of em vídeo. Essa é uma surpresa que ainda não anunciamos e vamos explicar melhor após o evento.

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Você me contou que a Jaqueline Abrão (que eu também tive o prazer de entrevistar) atuará como jurada do concurso de cosplay na próxima edição do Otakontro. De uma maneira geral, como se dá a escolha dos jurados nesse tipo de atividade? Quem são os responsáveis pela seleção? Quem são os intermediários?

A organização faz um processo de seleção entre os cosplayers que são conhecidos do meio e que possuem boa reputação, tivemos o prazer de encontrar com a Jack durante alguns eventos que comparecemos como público e adoramos o trabalho dela. É um prazer trabalhar com alguém cuja qualidade e responsabilidade precedem sua fama.

Concursos de cosplay são coisas complicadas. O que acontece nos bastidores que os espectadores geralmente não vêem? Quais são os cuidados a serem tomados para que tudo ocorra como deve?

As regras são o ponto principal, todas as cláusulas devem ser claras para que todos os participantes compreendam e aceitem os termos de participação e que isso não se torne uma dor de cabeça nem para os participantes nem para a organização. Especialmente em relação às notas, que devem ser o mais claras possíveis para que não haja acusações de “panelinhas” ou fraude. O concurso cosplay do Otakontro possuiu 11 versões das regras, sendo a 12ª a versão final.

Em várias convenções, profissionais e voluntários já se mobilizaram para oferecer “primeiros socorros” a cosplayers. Em outros países, um dos exemplos mais interessantes é o International Cosplay Corps, uma aliança de cosplayers que perambula eventos com kits de costura e maquiagem, ajudando aqueles que sofrem acidentes com suas fantasias. Esta prática já se tornou comum no Brasil? O Otakontro oferece serviços similares de SOS cosplay? No que ele consiste?

O SOS Cosplay é uma iniciativa que tomamos após conferir que a maioria dos eventos não oferece uma estrutura mínima para que o cosplayer possa se sentir confortável e seguro para poder ir e vir no evento sem temer que o cosplay fique com uma costura solta ou que seja necessário vestir a fantasia apenas na hora do concurso com medo dele se desgastar. Ele consiste em uma área específica dentro da sala cosplay que disponibilizamos, onde teremos diversas ferramentas como cola quente, linhas e agulhas entre outros, para que reparos rápidos possam ser feitos sem problemas, tudo a um custo único de 2 reais por cosplayer, que ganhará um “passe” que dura o evento inteiro.

O Otakontro recebeu bastante cobertura em relação à sua posição em relação aos YouTubers. De fato, estes produtores de conteúdo se tornaram uma verdadeira força midiática, chegando a dominar até mesmo a Bienal do Livro.  Como você enxerga essa preponderância? Você acha que existe uma tentativa deliberada de promover YouTubers em outros segmentos, ou tudo seria apenas uma tentativa de capitalizar sobre sua popularidade?

Como conversamos acima na proposta do evento, não somos “contra” youtubers, mas somos contra a falta de foco dos eventos e falta de estrutura oferecida pelos mesmos. Na ganância de conseguir milhares de jovens e adolescentes como público, um evento em Santos por exemplo, se envolveu com diversas polêmicas envolvendo agressões, confusões, diversos cosplayers sairam com fantasias danificadas entre outros.

Lembrando que o mesmo evento cobra um ingresso que é o mesmo valor de convenções de grande porte de São Paulo. Acreditamos que investir em infra-estrutura, treinamento de staffs e segurança é o essencial para que o evento possa apresentar atrações de peso como Youtubers, o que infelizmente não foi demonstrado nos últimos anos.

Por conta dos assuntos tratados em palco dos youtubers que são geralmente convidados, acreditamos que tudo não passa de tentativas de capitalização sobre a popularidade da pessoa que foi colocada ali, uma vez que não trazem conteúdo relevante pro cenário de cultura oriental.

Com tantos eventos de grande porte abrindo as portas a YouTubers, você acredita que eles estejam buscando novas audiências? Ou há de fato uma correspondência entre os amantes de cultura otaku e os fãs de YouTubers?

Todo evento busca atrair públicos diferentes a cada edição, agora a onda são os Youtubers, em breve, quem sabe, pode ser outro tipo de atração. Os amantes da cultura oriental antes de tudo esperam respeito, boa organização e conforto, isso deve ser a prioridade sempre.

Na sua experiência como organizador do Otakontro, você conseguiu perceber alguma diferença em relação a isso? Seu público alvo é o mesmo que frequenta convenções com YouTubers, ou fazem parte de outra comunidade?

Infelizmente, grande parte do público que frequenta eventos com youtubers vai por falta de opção. O que queremos atrair é o público que clama por um evento que se preocupe com a infra-estrutura, segurança e diversão em primeiro lugar.

Embora (relativamente) raros no Brasil, alguns YouTubers têm canais dedicados a conteúdo otaku. Você enxerga um possível compromisso entre estes YouTubers “especializados” e a “essência oriental” das convenções de velha guarda?

Sim, conhecemos muitos youtubers que possuem conteúdo totalmente oriental e acreditamos que eles poderiam trazer coisas relevantes aos eventos que fossem chamados. Infelizmente são geralmente trocados por outros Youtubers que possuem mais seguidores e que tratam de assuntos que não condizem em nada com o tema do evento.

Convenções são um paraíso para se comprar todo tipo de merchandise, de camisetas temáticas até figures. Ao mesmo tempo, há no mercado brasileiro uma abundância de produtos não-oficiais. Algumas pessoas, sobretudo colecionadores, acreditam que estes produtos encarecem e dificultam a chegada de merchandise oficial no Brasil. O resultado seria particularmente sentido no segmento de DVDs e CDs, muito comuns em outros lugares do mundo, mas que sofrem para competir com o mercado pirata no país. Você acha que este é um problema solucionável no nível das convenções? Ou acredita que seja uma questão maior, envolvendo as próprias agências de licenciamento?

É difícil conseguir produtos importados no Brasil, mas não impossíveis, tanto que as convenções sempre são sucessos financeiros para qualquer loja. Isto claro, dependendo da convenção. O licenciamento no país é possível, mas é um desafio que poucos estão dispostos a enfrentar.

Da World Con à Comiket, convenções são um dos elementos mais tradicionais da cena nerd/otaku. Como você encara o futuro do seguimento? Existem novos desafios a encarar, novas oportunidades a serem exploradas?

O maior desafio para uma evento é se reinventar e se renovar todo ano. Infelizmente o desgaste é o que mais faz convenções “morrerem”, mas se o organizador souber dirigir bem o navio de acordo com o mercado e ter a sensibilidade de escutar a comunidade, mas sempre mantendo a palavra final, tudo aponta para o sucesso e longevidade do evento.

O Otakontro acontecerá em Santos, dia 11 de Setembro. Para maiores informações, confiram sua página.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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