‘Pokémon Go’: O bom, o mau e o feio

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Goste ou não, não é mais possível ignorar o fenômeno. Pokémon Go se tornou campeão de pesquisas no Google , superou o Tinder em número de instalações e criou um novo gênero de pornografia.

Sua popularidade é tão grande que foi criado até um site para acompanhar o ritmo dos novos downloads em tempo real. Os resultados, como é de se imaginar, são assombrosos.

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Nem tudo funciona, nem tudo o que funciona funciona como esperávamos e nem todos conseguiram resistir à mais nova febre da forma como imaginavam.

Para você que já começou a seguir os caminhos de um mestre pokémon, ou para você que ainda está pensando em se render a um dos jogos mais populares de todos os tempos, segue abaixo um balanço daquilo que Pokémon Go fez de melhor… e o que poderia melhorar.

O BOM: Recompensas para todos os gostos

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Games não são todos iguais, muito menos as pessoas que os jogam. Muitas vezes, o maior atrativo para uma demografia é razão suficiente para outra abandonar os controles para sempre.

Tiro em terceira pessoa é um pré-requisito para fãs de ação-aventura, mas irá alienar RPGistas mais tradicionais. Micro-management é o oxigênio de fãs de estratégia, mas coloque-o em um FPS e gamers fugirão como o diabo da cruz. Griding é o caminho das pedras em JRPGs, mas em jogos ocidentais, um defeito imperdoável.

A história dos games está repleta de tentativas “inovadoras” de se juntar o “melhor de dois mundos”. E do fracasso de jogos que, na sanha de agradar a todos, perderam de ambos os lados.

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A maior parte dos estúdios decide tomar o caminho seguro e se focar naquilo em que são fortes. Porém, há também aqueles que decidem se arriscar – e fazer o impossível acontecer.

Para Jason Vandenberghe, diretor criativo da Ubisoft, o segredo dos jogos hiper-populares está em agradar simultaneamente as pessoas com os interesses mais díspares. Ser inovador sem abandonar a tradição, desafiador sem deixar de ser relaxante, severo sem punir os mais fracos.

Em suma, um jogo em que todos encontrem alguma coisa para gostar.

Pokémon Go cumpriu a façanha. O jogo combinou uma das IPs mais nostálgicas dos anos 1990 com um estilo de jogo pouco conhecido (embora não exatamente novo). Salpicou seu mundo com inúmeras recompensas sociais e oportunidades para interagir, sem prejudicar o apelo do single player. E uniu modos de jogo altamente competitivos (os ginásios) e estressantes (o griding) com o prazer de caçar casualmente pokémons que apareçam pela frente.

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Acima de tudo, é notável a maneira como lidou com sua dificuldade. Como já era esperado de um jogo mobile, Pokémon Go é extremamente simples e não demanda qualquer experiência prévia em games – muito menos nos seus predecessores de Gameboy.

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Embora algumas coisas nunca mudem

Ao mesmo tempo, fãs que desejem se dedicar aos monstrinhos de forma mais agressiva encontrarão bastantes oportunidades para experimentar com alguma complexidade tática. Explorar fraquezas de guardiões de ginásios, truques para farmar pidgeys, e pokebolas com efeito trazem um quê a mais para quem sente falta de um desafio.

O BOM: o jogo (ainda) não sucumbiu ao “pay to win”

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Não importa se você já se aventurou por Farm Ville, Angry Birds, Candy Crush Saga ou qualquer outro.  Se já passou tempo suficiente em um jogo casual, é muito provável que já tenha gastado alguns trocados – ou sido extorquido tanto para fazê-lo que acabou por largá-lo de todo.

Microtransações são a fórmula mágica para o sucesso de games mobile, mas também sua maior fonte de frustração. Não raramente, estes jogos apelam tanto para que abramos nossas carteiras que se tornam impossíveis de jogar sem gastar dinheiro. É o famoso “freemium”.

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Toda uma geração de copiadores da Zynga, de The Sims Social a Dragon Age Legends, nasceu e morreu por não saber achar o ponto ótimo entre o assédio e a falência.

Pokémon Go não é uma exceção à regra. Ele não só possui um sistema de microtransações, como incentiva os jogadores a utilizá-lo.

Lures e lucky eggs são importantíssimos, mas bem raros (sobretudo em níveis avançados). Ovos de pokémon demoram uma lenda para chocar sem incubadoras extras. Para pôr as mãos nos bichinhos dos 9 ovos que cabem em nosso inventário, pode ser necessário andar mais de 40km, tanto quanto uma maratona!

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Ou… podemos pagar uma pequena fortuna em incubadoras extas

No entanto, o jogo parece ter tomado cuidados para que a situação não degringolasse logo de cara. Muito embora podemos facilitar as tarefa do jogo, as microtransações não resolvem tudo. Ainda é necessário sair de casa e capturar pokémons, treinar e evoluí-los.

Lures dão uma vantagem a quem as compra, mas não só a eles. O efeito se manifesta para todos os jogadores na vizinhança. Ginásios invariavelmente serão dominados por pokemóns fortes, mas podem ser atacados em grupo. Desta forma, mesmo jogadores fracos têm uma chance de viver seu momento de glória.

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Achei que a lure trouxesse mais pokémons… não mais pessoas

O que poderiam ser motivos de discórdia, favorecendo jogadores pagantes em prejuízo aos outros, acabam se tornando oportunidades para cooperação.

O FEIO: O jogo é mais opaco que uma parede de tijolos

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Pokémon Go nos dá as boas vindas com um simpático discurso do Professor Willow, nos ensinando a pegar nosso primeiro pokémon. Dicas extras estão disponíveis quando encontramos pokéstops, ginásios e quando escolhemos nossa equipe.

E… Só.

CP, tipos de pokemón, fraquezas elementares, golpes, comandos de batalha. Tão cedo olhamos para nossos inventários, somos bombardeados por uma série de elementos que não fazemos ideia de como funcionam.

Mesmo suas mecânicas melhor explicadas continuam horrorosamente obscuras. Lures e incensos têm efeitos cumulativos? O que eu ganho fortalecendo um pokémon? +10 CP? +50 CP? +100 CP? Meu Weedle CP 10 vai morrer se lutar com o Vaporeon CP 1543 do ginásio da Equipe Mystic? O que raios é stardust?

Pokémon Go espera que os jogadores descubram tudo isso por tentativa e erro. O problema é que, sem saber o que esperar, pessoas ficam inibidas. Pior ainda: se se sentirem enganadas pelo jogo, desistirão de uma vez por todas.

No jogo, por exemplo, podemos usar lucky eggs para ganhar uma quantidade absurda de XP, se deixarmos para evoluir vários pokémons ao mesmo tempo. Quem descobrir isso apenas depois de evoluir todos os seus monstros um a um terá vontade de jogar o celular contra a parede.

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Na prática, obviamente, não precisamos ir pelo caminho mais difícil. Para todas as dúvidas, há sempre a internet. E Pokemón Go dispõe de uma das comunidades mais pró-ativas dos últimos tempos.

Em apenas alguns minutos, é possível encontrar todo tipo de guia, de explicações sobre os combates nos ginásios a dicas de como maximizar a experiência jogando pokebolas.

O problema é que, ao fazemos isso, não conseguimos escapar de uma certa pergunta…

 

O MAU: Até quando tudo isso vai durar?

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Jogos multiplayer são divertidos, competitivos, imprevisíveis. No entanto, todos que os jogam sabem que são experiências com uma hora para terminar.

Eu ainda posso abrir Star Wars: KotOR e me divertir tanto quando me diverti em 2003, quando o joguei pela primeira vez. No entanto, se quiser retornar a Star Wars Galaxies, lançado no mesmo ano, ficarei chupando o dedo. Seus servidores foram desligados em 2011.

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Isso vale em dobro para jogos sociais e mobile. Heroes of Neverwinter, tentativa de levar Dungeons & Dragons ao Facebook, ficou pouco mais de um ano no ar antes de ser desligado. Mass Effect: Galaxy e Mass Effect: Infiltrator, spin-offs do hit da Bioware para iOS, tiveram destino similar.

Pokémon Go vai nos divertir, irritar, incentivar a fazer amigos e gastar dinheiro. Porém, cedo ou tarde, será esquecido como todos os outros, e nós, deslumbrados com a próxima moda, provavelmente nem perceberemos.

A questão, obviamente, é quando isso acontecerá. Pokémon Go não apenas requer jogadores para permanecer em operação, como depende de muitos interessados para que funcione minimamente bem.

Sem milhares de pessoas para colocar lures perto de nossas casas, desafiar ginásios e colocar guias na internet, o jogo enfrentará um declínio bem rápido. Afinal, a diversão de se apanhar Zubats e Ratattas pela nonagésima vez é bem limitada.

Se a situação piorar muito, é possível que a Niantic aumente o peso das microtransações, na tentativa de obter algum lucro em cima dos jogadores mais devotados. O problema é que, se fizerem isso, alienarão todos os outros que não estarão a fim de pagar

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O jogo em um possível futuro próximo

Se isso te deixou assustado, não fique. Mesmo se a hype passar, a Niantic tem várias cartas da manga para manter seu público interessado.

Introduzir novos pokémons das gerações mais recentes é a estratégia mais óbvia (e, provavelmente, inevitável). Com mais de 700 pokémons na prateleira, “zerar”a pokédex não é um perigo que sofreremos tão cedo.

A revista Nintendo Life fez sua própria lista de previsões, incluindo eventos especiais (como o surgimento do Mewtwo), batalhas e trocas entre jogadores e integração com os games oficiais (à la Pokémon Stadium).

Já Toby Barnes, do Guardian, acredita que é provável que a Niantic venda espaço publicitário dentro do jogo. Por exemplo, permitindo que marcas paguem para que seus estabelecimentos virem pokéstops ou ginásios.

Independente do que aconteça, dizer adeus à nossa equipe não é algo com o qual precisaremos nos preocupar tão cedo.

Ramin Shokrizade, um expert em monetização, acredita que nada disso está perto de acontecer em um futuro próximo. Pelo contrário, Pokémon Go parece ter uma vida longa e frutífera à sua frente.

De lá para cá, podemos esticar nossas pernas e preparar tranquilamente nossos pokémons. Pois os ginásios das Team Valor e Mystic não vão se tomar sozinhos.

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Go Instinct!

 

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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