‘Darkest Dungeon’ e a importância dos roguelites para os games

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Um grupo de aventureiros decide desbravar as ruínas de um castelo em busca de tesouro. Seria a premissa de 90% dos dungeon crawlers do mercado, não fosse alguns pequenos detalhes:

Os aventureiros são humanos e podem ter um colapso nervoso caso encontrem alguma grande abominação. O progresso é permanente e não permite que recorramos a um save anterior. Os dungeons são mais repletos de armadilhas do que a mente de um mestre de RPG de mal humor, e a inteligência artificial parece ter o gênio de um sádico.

Assim Darkest Dungeon, de RPG genérico, se mostra um lançamento de peso para o começo do ano. O jogo, que já colecionava elogios em sua versão early access, é um roguelite ambientado em um cenário gótico, com ênfase no terror psicológico.

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“Terror” esse que afeta não o jogador, mas as personagens em si. Em Darkest Dungeon, o objetivo é explorar as masmorras e cavernas em torno da antiga mansão de uma família amaldiçoada. Além do perigo de morte,  os aventureiros precisam lidar com o estresse. Cada contratempo, de uma tocha que se apaga ao sucesso decisivo de um monstro, aumenta o desarranjo mental dos heróis. Caso se torne muito alto, eles começam a perder a sanidade.

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O jogo conta com cenários randomizados, de forma que nenhuma expedição será igual a outra (e nenhum detonado estará lá para nos ajudar). A sorte desempenha um papel excepcional, e pode transformar qualquer batalha em uma luta de vida ou morte.

Os riscos são tão grandes que fazem de Darkest Dungeon um dos poucos RPGs que não recompensam o jogador por “sair da rota”.

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Bifurcação? Passo

Contudo, o mais intrigante não é o que o jogo apresenta de novo, mas sim o que tem de comum com outros de seu gênero, os peculiarmente batizados roguelitesDarkest Dungeon faz parte de um movimento que parece atingir, finalmente, sua maturidade, e cujo impacto na indústria de games talvez vá muito além dos dungeons crawlers.

Para entendê-lo hoje, no entanto, é preciso saber de onde veio.

Roguelikes: O que são, de onde vêm

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Como o nome já sugere, roguelike é o nome dado a jogos que seguem o espírito de Rogue, um RPG clássico lançado nos anos 1980. Em nossa época de fotorrealismo, motion capture e tutoriais infinitos, o game pode parecer quase indecifrável.

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Simulando a expedição de um aventureiro por um dungeon, Rogue foi criado inteiramente em código ASCII e deixa quase tudo à cargo da imaginação. Não há “segundas chances” ou recurso aos detonados: as salas dos dungeons são geradas aleatoriamente a cada novo jogo, e a morte é permanente.

Se esses jogos passam a impressão de serem impossíveis, é porque estão fazendo bem o seu trabalho. A primeira coisa que precisamos ter em mente para entender os roguelikes é que seus fãs os levam muito a sério.

Não apenas os jogadores, que podem passar horas, dias ou mesmo semanas decifrando games que estão entre os mais difíceis do mercado. Seus criadores, também, demonstram um purismo quase sem precedente com as suas obras. Quão grande? A ponto de terem organizado uma conferência internacional para definir o gênero.

A Conferência Internacional de Desenvolvimento de Roguelikes (IRDC, na sigla em inglês) foi feita pela primeira vez em 2008 e é realizada até hoje. Na sua primeira edição, definiu roguelike “clássico” como qualquer jogo que tenha:

                – Gameplay baseado em turnos

                – Um “grid” hexagonal ou octogonal

                – Morte Permanente

                – Cenários procedurais (i.e. gerados randomicamente)

                – Inventário limitado

E mais uma pequena lista de características, incluindo jogabilidade hack n’ slash, mecânicas de exploração e descoberta, problemas com soluções múltiplas e modo single player. Os mais tradicionais incluem ainda temática de dungeon e mesmo o uso exclusivo da interface ASCII.

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Aí também já é demais

Nem todos os roguelikes seguem à risca a “Interpretação de Berlin”, como foi chamada a classificação. Mesmo assim, a fórmula básica de Rogue, com pequenas variações, serviu de base para vários sucessos hardcore nos anos 1980 e 1990, como NetHack, ADOM, Moria e Angband.

Alguns desses jogos conquistaram um público fiel, que os expandiu e repaginou com o passar dos anos. Nethack, um dos mais populares do gênero, chegou até a ganhar uma interface isométrica.

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No fim dos anos 1990, os roguelikes, desde sempre uma paixão de nicho, fecharam-se a um público ainda mais seleto. Isto talvez tenha se dado, em parte, graças à popularidade de seu sucessor espiritual, Diablo. Concebido por um fã de Rogue e Moria, o hit da Blizzard trouxe os dungeons crawlers ao muito mais acessível universo do point-and-click. Em uma era de exuberância visual e curvas de dificuldade piedosas, os velhos games em ASCII tornaram-se um desafio peitado apenas pelos mais valentes.

Um analista desavisado poderia apostar no fim do gênero na cena mainstream. Isso talvez acontecesse,  não fosse a gigantesca nostalgia de desenvolvedores independentes pela década de 1980. Com o boom de jogos indie no fim dos anos 2000, foi questão de tempo até que roguelikes voltassem à linguagem corrida.

spelunky.pngAs honras vieram com Spelunky, jogo de plataforma com morte permanente e níveis randomizados que se mostrou incrivelmente popular. O jogo não era um roguelike, e nem se apresentava como tal, mas ressuscitou elementos caros ao velho estilo a uma nova geração.

O sucesso abriu as portas para vários games do mesmo gênero, alguns dos quais se sagrariam como marcos: The Binding of Isaac, Rogue Legacy, FTL, Sunless Sea (de que já falei antes) e, por fim, o próprio Darkest Dungeon.

Esses roguelike-likes, roguelites, ou neo-rogues, como já foram chamados, não seguem à risca a cartilha do estilo. Antes, como tudo na indústria contemporânea, eles se apropriam dos elementos que mais gostam, recombinando-os com novidades ou elementos de outros gêneros.

Para alguns, a sua popularidade é um sinal dos tempos. Há quem diga que vivemos em uma “renascença do roguelike”. Já Mike Mahardy, da IGN, acredita que o gênero é a cabeça de uma nova contracultura.  Há algo no estilo, com toda a sua simplicidade e dificuldade, que parece apontar para o futuro dos games. Ou, pelo menos, para um presente diferente, transformado por mudanças.

Mas que mudanças, afinal, seriam essas?

Contracultura ou contrarreforma?

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A primeira coisa que salta aos olhos, obviamente, é o “retorno da dificuldade”. Entre a “revolução casual” em sua busca por novos públicos e a popularização de ficção interativa com o mínimo de gameplay, a inclemência dos games das gerações 8-bit e 16-bit pareceu ter se tornado coisa do passado.

O sucesso estrondoso da série Souls, no entanto, provou que havia uma demanda para jogos sofridamente difíceis. E o mercado indie, em sua nostalgia pelos “bons tempos” do passado, trouxe de volta jogos desafiadores tal como já havia feito com platformers adventure games. Nesse sentido, Darkest Dungeon é apenas o mais novo passatempo para fãs da filosofia “losing is fun”.

Porém, dizer que o impacto dos roguelikes/lites se resume à dificuldade é injusto. Em primeiro lugar, não só a “renascença de roguelikes” não é uma ameaça aos games casuais, como vários roguelites foram lançados para plataformas mobile. Não só isso, o próprio Glenn Wichman, criador de Rogue, chegou a ser contratado pela Zynga.

Em segundo lugar, há razões para acreditar que os novos rogues atendem a um outro desejo, um tanto mais sutil.

O “jogo puro” e as narrativas emergentes

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A pista está em uma entrevista com Henrik Fahraeus, um dos criadores de Crusader Kings II. Fiel à linha de seu estúdio, a Paradox, CKII foi desenvolvido como uma complexo jogo de estratégia sobre a Idade Média, permitindo a seus jogadores encarnar os líderes de qualquer reino ou província da época. Uma atenção desmesurada foi dada a cada mecânica para garantir que a simulação fosse o mais verossímil possível.

Para a surpresa de Fahraeus, o jogo foi um sucesso absoluto, vendendo mais de 1 milhão de cópias. Para a sua surpresa ainda maior, parte desses jogadores não tinham o menor interesse em história, muito menos em Idade Média.

Eles gostavam do jogo porque o achavam um ótimo roguelite. 

Nas palavras de Fahraeus:

Eu provavelmente passei tempo demais desenvolvendo e pensando sobre os outros aspectos do jogo que as pessoas não acham muito interessante, embora sejam bem complexos. Foi provavelmente um erro ter colocado tanto tempo naquilo. O mesmo vale para os sistemas de tecnologia e de leis que estão no jogo. Eu meio que persegui algumas pistas falsas tentando agradar ao velho público dos games históricos de estratégia.

Eu deveria, em retrospecto, ter gasto mais tempo tentando desenvolver a narrativa emergente. Se eu pudesse refazer alguma coisa, provavelmente seria isso.

O que Fahraeus chama de “narrativas emergentes” são histórias que vivemos nos jogos, mas que não foram “escritas” pelos desenvolvedores. Enquanto que jogos tradicionais têm uma estrutura fechada, com começo meio e fim, cutscenes e pontos de escolha, outros preferem uma abordagem mais anárquica.

Jogos sem fim definido, com mecânicas baseadas na probabilidade, muitas variáveis e liberdade de escolha geralmente deixam as coisas ao acaso. A “história” não é prevista, ela “acontece” à medida que jogamos.

Crusader Kings II é um exemplo disso. O jogo não tem missões, eventos obrigatórios, fases ou níveis tecnológicos. Tudo está à mercê do rolar do dado. Por consequência, cada começo dará início à sua própria trajetória, completamente diferente da anterior.

Qualquer semelhança com os roguelites não é mera coincidência. Os cenários de Crusader Kings II não são procedurais, mais o número de variáveis é tão grande que a chance do mesmo jogo se repetir é nula. Adicione a isso o fato de interpretarmos personagens humanas (e não reinos ou inteligências divinas, como em Age of Empires) e temos um gerador de histórias pessoais e randômicas. Para os puristas de roguelikes, basta ativar o modo Ironman (que desabilita saves manuais) para trazer de volta o velho permadeath.

A popularidade dos roguelites na cena indie pode significar não apenas uma demanda por jogos mais difíceis. Ela pode indicar, também, o desejo por “histórias gamísticas” em que o jogador interpreta um papel maior do que o de simples espectador.

O apelo de tais histórias é óbvio. Como eu já disse algumas vezes, elas reproduzem o espírito dos RPGs de mesa e das brincadeiras de faz-de-conta melhor do que qualquer jogo tradicional com suas escolhas binárias jamais fará.

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Que essa “renascença dos roguelikes” esteja acontecendo agora, na década de 2010, pode apontar para uma virada importante. Na década passada, o fotorrealismo, a presença de atores de Hollywood na dublagem e os dramas interativos passaram a impressão de que a indústria de games precisavam seguir a do cinema. O jogo “cinemático” virou um paradigma para os novos tempos.

Roguelites são interessantes por serem o exato oposto dessa visão. De uma certa maneira, eles são jogos “puros”, em que tudo (ou quase tudo) é um desdobramento de suas mecânicas. Cutscenes são raras, recursos cinemáticos são mínimos, o controle autoral é inexistente. Todo o seu potencial expressivo vem do gameplay.

Se nada mais, apenas por nos lembrar desse caminho alternativo os roguelites já provaram sua importância.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

2 comentários em “‘Darkest Dungeon’ e a importância dos roguelites para os games”

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