‘Showa Genroku Rakugo Shinju’: O lado exótico (e cômico) da cultura japonesa

showa genroku rakugo i

Em um meio repleto de mechas, cenas de ação em CG e heroínas de cabelos coloridos, qual a chance de um drama histórico sobre pessoas normais fazer sucesso?

E se o anime em questão for focado em um estilo de teatro virtualmente desconhecido fora do Japão, que mesmo em seu país natal é considerado uma cultura de nicho?

E se, em adição a tudo isso, esse anime abrisse com um episódio de 50 minutos, dos quais 15 são ocupados por apresentações de duas performances na íntegra?

Em um mundo “normal”, nenhuma. Felizmente para nós, o universo otaku é tudo menos normal. É assim que Showa Genroku Rakugo Shinju, anime sobre um aprendiz de teatro rakugo, tornou-se um dos lançamentos mais badalados da última temporada.

A série inusitada se passa nos anos 1970 e acompanha Kyoji, um ex-presidiário que se apaixonou pelo teatro rakugo após assistir a uma performance do famoso ator Yakumo Yurakutei. Uma vez solto, Kyoji procura Yakumo e pede para se tornar seu aprendiz.

Nas palavras da Gabriella Ekens, do Anime News Network, esse é o enredo que esperamos encontrar em um filme concorrendo ao Oscar, não em um anime. A surpresa é sem dúvida maior para nós, ocidentais, do que para o público japonês. Em sua terra de origem, Showa Genroku Rakugo Shinju é a adaptação de um celebrado mangá vencedor de vários prêmios, incluindo o Kodansha. O próprio anime já teve um “teste de fogo” em dois OVAs produzidos pelo mesmo estúdio e lançados nas bancas com os últimos volumes do mangá.

Para uma série desse calibre, no entanto, qualidade é apenas o começo. É necessário, também, ser acessível. De um lado, não é a primeira vez que animes abordam o inabordável. Hikaru no Go, baseado no clássico e dificílimo jogo de estratégia oriental, fez tamanho sucesso que motivou vários fãs a estudar o jogo ou mesmo comprar seus próprios tabuleiros.

hikaru no go
Incluindo esse blogueiro que vos escreve

De outro lado, séries como Mad Men e Downtown Abbey popularizaram o drama histórico sério na geração atual. Entretanto,  seu apelo não atinge necessariamente o mesmo público – ou a mesma faixa etária – que a maioria dos animes comerciais.

Conseguirá Rakugo ganhar um espaço no coração dos otakus, tal como Hikaru no Go? Isto, só o tempo dirá. Uma coisa é certa: você dificilmente assistirá a um anime mais exótico esse ano.

Mas o que, afinal, é rakugo?

Em tempo: rakugo é uma espécie de “sit-downcomedy japonesa. Trata-se de um monólogo teatral em que o ator, sempre sentado e vestido com trajes formais, narra uma história cômica. Nas palavras de uma especialista, o rakugo é uma sitcom em que todos os papeis são interpretados por uma mesma pessoa.

rakugo phoebe
“Você sabia que 9 entre 10 casamentos terminam em divórcio?” “Phoebe, isso não é verdade!”

 

Como tudo o que vem do Japão, o segredo está nos detalhes. O artista de rakugo interpreta todas as personagens de sua história e usa linguagem corporal e mudanças de intonação para sinalizar os diversos papéis.

Para ajudá-lo, ele tem ao seu dispor apenas um leque e uma toalha. Por meio da mímica e muito faz-de-conta, estes objetos ganham vida como todo o tipo de aparato, de um par de hashi até armas de fogo.

rakugo prop

As apresentações geralmente começam no estilo de um stand-up ocidental, com uma roda de piadas e um momento para o ator “testar” a sua plateia. No caso de performances para ocidentais, ele geralmente inclui uma explicação sobre o próprio rakugo. Depois, o ator entra na história (ou histórias) propriamente ditas, que podem durar de alguns segundos a quase uma hora.

Para os curiosos, há alguns rakugokas (atores de rakugo) que se apresentam em inglês, e seus vídeos podem ser encontrados no YouTube. Um dos mais pitorescos é Katsura Sunshine, ou Sunshine-san, um canadense oxigenado que veste kimonos de folhas de maple:

Se você é fã de cultura japonesa e nunca ouviu falar de rakugo, não tenha medo. Sua carteirinha não será revogada. Rakugo é um gênero teatral notoriamente obscuro, e não por acaso.

Ao contrário de muitos stand-ups, as performances não são improvisadas. Tal como no antigo teatro grego, as histórias vêm (ou costumavam vir) de um cânone comum, e cabia aos atores apenas interpretá-las à sua maneira.

Considerando que o rakugo foi criado por monges budistas no século X e que várias das histórias datam do período Edo (1603-1868), trata-se de um humor bem específico… e bastante tradicional.

No final do primeiro episódio, Yakumo diz ao seu discípulo que só aceitará ensiná-lo caso ele o ajude a ressuscitar o rakugo. Independente do que aconteça no anime, fora das telas a série parece ter cumprido a missão. Basta pesquisar por “rakugo” no google para constatar que quase metade dos resultados dizem respeito ao anime.

Uma relíquia do passado…

Anos atrás, em uma conversa entre otakus, um amigo meu disse que todos os clichés de anime vêm do Genji Monogatari, o grande clássico da literatura japonesa escrito quase mil anos atrás.

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“Não faça isso, Senpai!”

Ele talvez ficará contente em saber que não é o único a ter formulado essa ideia. Um estudioso da universidade Kwansei Gakuin, no Japão, acredita que não apenas o anime, mas toda a cultura cool japonesa teria suas raízes no passado antigo.

Essa é uma discussão interessante, que bate em uma questão ainda mais complicada e que já citei aqui antes: animes são, de fato, parte da cultura japonesa?

Muito embora o gênro esbanje samurais, geishas, uniformes de sailor e takoyaki, há quem diga que o formato do anime deve mais ao ocidente do que ao oriente. Isto inclui não somente as técnicas de animação, mas todo um modelo de produção de entretenimento importado dos Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra. Para alguns, das influências de Walt Disney em Tezuka e Miyazaki às convenções de cosplay, a cultura pop japonesa pode ser tudo, menos made in Japan.

Se não fose o bastante, vários diretores, mangakás e mesmo artistas inspirados na estética anime – como o popular Takashi Murakami – se afeiçoaram ao estilo justamente pela sua cara fantasiosa e internacional. A ideia era reapropriar elementos da cultura japonesa em um novo contexto, não prestar homenagem ao passado. Sob este ponto de vista, o anime não seria uma continuação do entretenimento da era Edo mais do que os romances do George R.R. Martin seriam uma continuação das novelas de cavalaria.

canterbury tales
Quase uma série da HBO

…Ou um legado para o presente?

Continuação ou não, é difícil negar que o anime deve muito às formas de arte que o precederam. Como não poderia deixar de ser, dado sua natureza cinematográfica, isso vale em dobro para as artes cênicas.

Shigeru Mizuki, um dos “pais” do mangá ao lado de Osamu Tezuka, começou a carreira como narrador de kamishibai, performance tradicional em que uma história é contada com a ajuda de quadros desenhados. A temática youkai em que ele foi pioneiro  deve muito a sua experiência com contos populares.

kitaro

Já Eiji Otsuka, antropólogo e mangaká autor de Delivery Service of Corpse, disse que os grandes gêneros de anime (Mahou Shoujo, Slice of Life, Artes Marciais, Magical Girlfriend etc) seguem a mesma lógica de classificação das antigas peças de teatro kabuki e bunraku.

O rakugo teve uma presença menor, mas nem por isso é um estranho no universo do anime. Rakugo Tennyo Oyui,  um Mahou Shoujo que elevou o conceito de off model a um novo patamar, tinha como protagonista uma aspirante a rakugoka que ganhava poderes mágicos e era transportada ao período Edo. 

rakugo tennyo oyui

rakugo também pode ser visto em espírito, se não em forma, na enorme influência de seu gênero irmão, o manzaiTrata-se de um estilo de performance humorística quase tão antigo quanto o rakugo. Sua principal diferença é que, em vez de um monólogo, o manzai se baseia em um dupla, composta por uma personagem séria (o tsukkomi) e uma atrapalhada (o boke). 

manzai se tornou uma das bases do humor japonês contemporâneo. Preste atenção em seu anime favorito e muito provavelmente você verá que boa parte das cenas cômicas giram em torno de um sujeito ingênuo ou engraçado atiçando a raiva do amigo sério.

Takeshi-Kitano
Takeshi Kitano

Curiosidade: do manzai também veio Takeshi Kitano, diretor de Dolls Zatoichi e ator na adaptação cinematográfica de Batalha Real. Tal como o protagonista de Showa Genroku Rakugo Shinju, ele tornou-se comediante nos anos 1970. No Japão, ainda é conhecido como Beat Takeshi, seu nome de palco.

Em alguns casos, o manzai aparece com toda a sua teatralidade. Quem jogou Ni no Kuni, o game da Level-5 desenhado pelo Studio Ghibli, deve se lembrar de uma apresentação da modalidade nos Fairygrounds:

manzai tem uma grande vantagem: desde sua origem, ele sempre foi muito mais informal e adaptável a diferentes circunstâncias. O rakugo, por sua vez, tem uma estrutura bem mais rígida, algo que os criadores de Showa Genroku Rakugo Shinju parecem ter reconhecido ao fazer a obra como um drama, e não um pastelão à la Nodame Cantabile.

nodame cantabile
Que, por sinal, dá vários exemplos de ‘manzai’ entre Chiaki e Nodame

Em todo o caso, um possível sucesso da série pode significar mais do que uma excelente estreia para a abertura do ano. Showa Genroku Rakugo Shinju tem o potencial de criar um gênero próprio, e nos introduzir a uma forma completamente diferente de vibrar- e de rir – com os animes.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

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