‘Zero Eterno’: Eram os kamikaze terroristas?

eien no zero

Convenções de anime têm muito atrativos, mas poucos, na minha opinião, são tão legais quanto varar um estande de sebo ou livraria de mangás e achar algo que não sabia que existia. Nesse ano, o “achado” foi Eien no Zero, ou Zero Eterno, uma minissérie bonitona lançada pela JBC como parte de seu selo “especial”, com direito a papel off-set e orelhas. Se o título já não entrega, a capa sem dúvida o faz: Zero Eterno é uma mangá sobre caças. Mais precisamente, sobre a segunda coisa que vem à mente quando pensamos no Japão em guerra: os kamikaze.

A primeira dispensa comentários
A primeira dispensa comentários

O mangá é baseado em um romance bestseller do escritor Naoki Hyakuta, lançado em 2006. O  sucesso do livro foi tão grande que inspirou também uma superprodução cinematográfica em 2013, que se tornou um dos filmes mais vistos da história do Japão. A trama acompanha Kentaro, um jovem que decide pesquisar sobre a vida de seu avô, um piloto de Zero (o caça japonês da Segunda Guerra) que se suicidou em um ataque kamikaze.

Tudo estaria certo, não fosse um encontro que tem com um jornalista. Segundo ele, os kamikaze não eram pessoas normais obrigadas a se matar por uma guerra sem sentido, mas guerreiros fanáticos que se voluntariavam para servir ao Imperador. Eram pessoas doutrinadas a valorizar suas causas políticas mais do que a própria vida, não muito diferente dos militantes da Al Qaeda ou do Estado Islâmico. Em suma, eram terroristas.

Incomodado ao pensar no avô como um predecessor dos homens-bomba, nosso protagonista parte em uma jornada entrevistando veteranos que o conheceram. O que ele descobre muda completamente sua visão. Kyuzo Miyabe, seu avô, era um piloto habilidoso, porém tinha fama de covarde. Ao contrário de seus comandantes, que pregavam o sacrifício pela pátria, ele buscava sobreviver a todo custo. Sua mentalidade (ao menos à primeira vista) era “contemporânea”: sua vida, e o bem-estar de sua família, falavam mais alto que qualquer imperador.

Contudo, o depoimento não entrega o maior dos mistérios: como um sujeito desses decidiu se voluntariar para um ataque suicida? Teria ele sido forçado? Teria ele mudado de ideia? Por quê?

A complicada memória japonesa

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Eu não me canso de ler (ou assistir) japoneses falando sobre a Segunda Guerra. Na mídia ocidental, o conflito de 1939 a 1945 é quase sempre retratado como uma luta simbólica entre o bem e o mal, entre os defensores da nossa liberdade e os monstros responsáveis por todos os males do mundo, do aquecimento global às flame wars do Facebook.  Às vezes, para efeito dramático, colocamos heróis superpoderosos do lado dos aliados e transformamos nazistas em zumbis. A diferença é apenas estética: a Segunda Guerra foi um morticínio, mas nem por isso deixou de ser a “boa guerra”, a “guerra honesta”, a guerra “necessária”.

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Já no Pacífico, qualquer obra sobre o conflito global é um chute no vespeiro. Ao contrário da Alemanha, o Japão manteve seu imperador, vivo e no poder, até sua morte em 1989. Para quem viveu essa época, fica difícil enxergar o fim da Segunda Guerra como um divisor de águas. O fato dos anos 1980 terem sido um auge da economia do país só complica as coisas. Para o japonês baby boomer, a Era Shouwa, do imperador Hirohito, foi a era da prosperidade.

Para piorar, os ocidentais antiamericanos, que adoram pregar que o Ocidente é culpado por tudo o que tem de errado no planeta, têm dificuldades para entender que o Império do Japão foi uma das ditaduras mais sangrentas da história. Ainda mais quando a maior parte da sua “resistência de oprimido” foi dirigida contra outros povos asiáticos: chineses, filipinos, indonésios. Os ultranacionalistas japoneses (pensem nos defensores da nossa ditadura) foram rápidos em agarrar a deixa. Segundo eles, o Japão foi uma “vítima” que lutou para se defender, e os crimes contra a humanidade que cometeu não passam de  “propaganda comunista”.

Assim, não é de se espantar que obras japonesas sobre a guerra gerem debates acalorados. Zero Eterno não fugiu à regra. Hayao Miyazaki, que abordou questões similares em seu Vidas ao Vento, chamou a obra de “uma pilha de mentiras” que induz jovens a se orgulharem dos pilotos de Zero.  Quando o premiê japonês Shinzo Abe disse que se emocionou com a adaptação à telona, a mídia não perdoou. Os veículos chineses acusaram a obra de ser “propaganda para o terrorismo”. A Economist, num artigo provocativo intitulado “A direita japonesa: missão cumprida?” diz que seu autor, Naoki Hyakuta, é um extremista político que prega que o Massacre de Nanquim em 1937 nunca aconteceu.

O que mais parece ter incomodado em Zero Eterno é a ideia de que os kamikaze teriam sido patriotas, que lutavam e se sacrificavam por convicção. Na realidade, dizem os críticos, a maior parte dos pilotos se alistava contra a sua vontade.

kamikaze eternal zero

Tenho minhas dúvidas de que as coisas sejam assim tão simples. A visão dos críticos é mais confortável, e mais parecida com a história “Capitão América vs Caveira Vermelha” que virou regra no ocidente. Todos são “vítimas” de uma ideologia malvada que não existe mais, e tudo o que foi feito em nome dela é errado.

O problema, infelizmente, é que fanáticos existem, e eles não são um ponto fora da curva. Décadas atrás, Haruko e Theodore Cook lançaram Japan at War: An Oral History, uma compilação de entrevistas com vários sobreviventes da Segunda Guerra. Basicamente o mesmo tipo de livro que o protagonista de Zero Eterno busca escrever. A variedade dos testemunhos é enorme, mas neles podemos separar claramente os alistados contra a própria vontade daqueles que se voluntariaram para morrer.

Um deles, piloto de kaiten (submarino suicida), diz que até hoje se sente envergonhado por não ter morrido pela glória do Imperador. Outro, que servira no exército, disse que as bombas atômicas foram apenas um arranhão, e que o Japão teria vencido a guerra caso não tivesse se rendido.  Os pacifistas que me perdoem, mas esse é o tipo de depoimento que eu espero de um homem-bomba.

Os “patriotas” da obra de Hyakuta existiram de fato. Que não fossem todos patriotas, obviamente, é outra história. No entanto, mesmo aqui acho que os detratores do Zero Eterno pegaram pesado demais. O autor é bem insistente ao dizer que os motivos que levavam cada um daqueles jovens a se tornar kamikaze eram muito diferentes. Um dos veteranos que Kentaro entrevista era um garoto pobre, forçado a trabalhar desde criança e que apanhava de todo mundo. A glória da aviação lhe dava aquilo que ele nunca teve: reconhecimento, fama, e – acima de tudo – um jeito de fugir dos espancamentos.

Ele não é um exemplo único. Em toda sociedade há uma multidão de jovens sem propósito, que se acham um lixo e são odiados ou ignorados pelos outros. Nenhum filme retratou isso melhor do que o alemão A Onda, em que um professor cria acidentalmente uma seita fascista na intenção em ensinar a seus alunos como o fascismo funciona. A garota popular da sala, amiga de todo mundo, é a primeira a perceber que há algo errado e pular fora. Já aquele que leva a doutrina às suas últimas consequências é justamente o excluído, o “estranho”, o sem amigos. Convença uma pessoa de que ela é infeliz, de que a culpa é dos outros e de que ela tem direito de odiá-los e o caminho para o fanatismo está aberto. Não é a toa que os extremismos foram (e sempre serão) tão populares.

O certo, o errado e o badass

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Resta aqui a crítica de Miyazaki, a mais simples e ao mesmo tempo mais incisiva de todas. O feedback negativo da lenda viva do Ghibli parece ter incomodado Hyakuta. Em uma troca que parece saída de uma briga na pré-escola, ele respondeu que “Miyakazi não bate bem da cabeça” e que Vidas ao Vento é que é cheio de mentiras. O criador de Nausicaa pode ser muitas coisas, mas incoerente ele não é. Como aqueles que assistem seus filmes já sabem de cor e salteado, para ele qualquer glorificação de batalha é errada. A guerra é ruim e ponto final. Não há “males menores”. Não há “causas justas”. Não deveria haver beleza alguma nas coisas que matam (daí o conflito do protagonista de Vidas ao Vento).

Infelizmente para Miyazaki, essa não é uma luta (com o perdão do trocadilho) que ele tem chances de ganhar, ao menos não em seu nível mais abstrato. O combate aéreo da Segunda Guerra Mundial tem um glamour que Castelo Animado nenhum é capaz de apagar. Antes dos mísseis teleguiados e jatos supersônicos, o combate nos céus era uma questão de habilidade. A dogfight do século XX era um duelo de perícia, inteligência e familiaridade com a máquina. Não é por acaso que elas serviram de base para as eletrizantes batalhas de Star Wars e para alguns dos videogames mais memoráveis de todos os tempos.

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Dá para entender porque as lembranças desses combatantes soam tão entranhas aos nossos ouvidos. Eugene Sledge, fuzileiro naval americano cujas memórias inspiraram a série The Pacific, narra que a guerra terrestre era tão cruel e violenta que soldados de ambos os lados chegavam a profanar cadáveres em busca de troféus. Cabeças, dedos e orgãos genitais eram decepados e mostrados aos outros por orgulho. O próprio Franklin Roosevelt chegou a ganhar de presente um abridor de cartas feito com ossos de um japonês. O inimigo era tão odiado que deixava de ser visto como ser humano.

Nos céus, a coisa era outra. Pilotos de caça não viam sangue, apenas explosões. Não havia massacres de prisioneiros, apenas confrontos com oponentes armados. Não havia baixas de civis, pois as batalhas eram travadas em alto-mar, com aviões pousando e saindo de porta-aviões ou de pistas em ilhas isoladas. A impressão, pelo menos, era de uma “guerra limpa”.

O exemplo mais chocante é o de Saburo Sakai, um ás da aviação japonesa que até faz uma ponta em Zero Eterno. Sakai foi um dos combatentes mais entrevistados da Segunda Guerra, e seus depoimentos podem ser encontrados na internet às dúzias. As histórias que ele conta são muitas vezes inacreditáveis. Em uma batalha, ele derrubou um grupo inteiro de bombardeiros, com exceção de um avião: por acaso, era aquele no qual servia Lyndon B. Johnson, futuro presidente dos EUA. Em outra, ele foi metralhado em vôo, perdeu um olho e conseguiu pousar em segurança. Depois da guerra, ele procurou, encontrou e ficou amigo do artilheiro que o havia atingido.

saburo sakai eien no zero

Saburo Sakai é um homem que nos faz coçar a cabeça em confusão. Ele nunca guardou mágoas pela guerra e se tornou um grande fã da cultura americana, a ponto de mandar seus filhos estudarem nos EUA para “aprenderem o que é democracia”.  Ele era presença garantida em encontros de veteranos americanos, e morreu em 2000 durante um jantar com seus ex-inimigos na base militar americana de Atsugi. Sakai também teve um pé no mundo geek, servindo de consultor para o videogame Combat Flight Simulator 2.

Ao mesmo tempo, ele dizia que as atrocidades cometidas pelo seu país eram “exageros” feitos por oportunistas em busca de indenização do governo japonês. Pior ainda, em um episódio para dar “tela azul da morte” a qualquer militante antiamericano, ele disse que Paul Tibbets, piloto do avião que lançou a bomba em Hiroshima, foi um “grande herói dos EUA” e que teria feito a mesma coisa se estivesse em seu lugar.

Quem está certo em toda essa história? Eu não faço ideia e às vezes tenho medo de saber. Mas é justamente por tocarem em assuntos tão complicados, contraditórios e espinhosos como esse que obras como Zero Eterno me fascinam tanto.

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Publicado por

Vinicius Marino

Nerd, historiador, fã de Satoshi Kon e Mass Effect

4 comentários em “‘Zero Eterno’: Eram os kamikaze terroristas?”

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